Se a PEC 8/2025 for aprovada — reduzindo a jornada de trabalho de 44 para 36 horas semanais —, as redes municipais de educação de todos os 26 estados e do Distrito Federal enfrentarão um déficit imediato de professores. A magnitude varia muito: São Paulo precisaria repor sozinho cerca de 30 mil docentes, enquanto Roraima e Amapá somados mal chegam a 1.300. O estudo técnico divulgado pela Confederação Nacional de Municípios (CNM) em maio de 2026 não detalha o corte por carreira em cada estado — mas os dados totais por UF, combinados com a proporção nacional do setor educação, permitem uma estimativa robusta. É o que este artigo apresenta.
Ranking completo: quantos professores cada estado perderia com a aprovação da PEC 8/2025 e qual seria o custo para as prefeituras municipais.
O estudo da CNM, baseado na RAIS 2024, calculou que a aprovação da PEC 8/2025 exigiria a reposição de 770.279 servidores municipais em todo o Brasil, com impacto financeiro de R$ 48,4 bilhões. Desse total, 27,4% das contratações e 32,6% do impacto financeiro concentram-se no setor de educação — a área mais afetada em números absolutos, com estimativa nacional de 210.922 novas contratações docentes.
O estudo da CNM não detalha o recorte educação por estado, apenas o total de servidores por UF. Para este artigo, aplicamos a proporção nacional do setor educação ao total de cada estado — metodologia transparente e conservadora, que provavelmente subestima os estados com maior concentração de professores na folha municipal, como Nordeste e Minas Gerais.
Os números abaixo são, portanto, estimativas mínimas. O déficit real tende a ser maior nos estados onde a educação responde por fatia superior à média nacional do funcionalismo municipal.
210,9 mil
professores necessários nas redes municipais (total Brasil — PEC 8/2025)
27,4%
do total de reposições municipais é na área de educação
R$ 15,8 bi
impacto financeiro estimado só na educação municipal brasileira
Os 5 estados com maior déficit estimado de professores
A concentração do impacto reproduz, com poucas surpresas, o mapa demográfico e fiscal do país. Os cinco maiores estados respondem por quase metade de todo o déficit estimado na educação municipal.
1. São Paulo — ~30.069 professores | R$ 3,0 bilhões
São Paulo lidera com folga. Com o maior funcionalismo municipal do país — 109.812 servidores afetados no total pela PEC —, a rede municipal paulista precisaria contratar ao redor de 30 mil novos docentes para manter a oferta de aulas nos patamares atuais. O impacto financeiro estimado só na educação ultrapassa R$ 3 bilhões. É o cenário mais caro do país, num estado que já convive com denúncias crônicas de falta de professores substitutos e superlotação em salas de aula da capital e do interior.
2. Minas Gerais — ~26.664 professores | R$ 1,8 bilhão
Minas Gerais figura em segundo, com 97.375 contratações totais estimadas e déficit de cerca de 26.664 professores municipais. O estado tem uma das redes municipais mais capilarizadas do Brasil — são 853 municípios, a maioria de pequeno porte, onde a prefeitura frequentemente é o único empregador público de professores. Nessas cidades, repor nem que sejam 3 ou 4 docentes pode representar meses de processo seletivo e pressão insustentável sobre quem ficou.
3. Bahia — ~18.777 professores | R$ 1,2 bilhão
A Bahia aparece em terceiro, com impacto estimado de 18.777 professores e custo de R$ 1,2 bilhão. Estado com forte presença da rede municipal na educação básica — especialmente no interior, onde escolas estaduais têm cobertura limitada —, a Bahia já enfrenta histórico de defasagem salarial docente e dificuldade de retenção de professores concursados. O déficit criado pela redução de jornada se sobreporá a uma estrutura que já está pressionada.
4. Rio de Janeiro — ~14.002 professores | R$ 1,1 bilhão
O Rio de Janeiro entra no top 4 com 14.002 professores estimados em déficit. O estado carrega um histórico particular de crise no funcionalismo: prefeituras que já operaram sob regime de precatórios e tiveram folhas atrasadas têm estrutura frágil para absorver obrigações novas de contratação. O impacto de R$ 1,1 bilhão na educação municipal fluminense não é trivial em nenhum cenário fiscal realista.
5. Ceará — ~12.406 professores | R$ 774 milhões
O Ceará fecha o top 5 com 12.406 professores estimados. O estado é frequentemente citado como referência em gestão educacional municipal — mas justamente por ter apostado em estruturas de avaliação e formação continuada que dependem de corpo docente estável. Um déficit dessa magnitude comprometeria não só a quantidade de aulas, mas a continuidade de programas que levaram anos para amadurecer.
O ranking completo: todos os estados
A tabela abaixo apresenta o ranking completo dos 26 estados, com estimativas de déficit docente e impacto financeiro na educação municipal calculados a partir dos dados do estudo da CNM.
| # | Estado (UF) | Professores em déficit (est.) | Impacto financeiro educação (est.) | Total servidores (CNM) |
|---|---|---|---|---|
| 1 | São Paulo (SP) | ~30.069 | R$ 3,00 bi | 109.812 |
| 2 | Minas Gerais (MG) | ~26.664 | R$ 1,85 bi | 97.375 |
| 3 | Bahia (BA) | ~18.777 | R$ 1,20 bi | 68.572 |
| 4 | Rio de Janeiro (RJ) | ~14.002 | R$ 1,14 bi | 51.133 |
| 5 | Ceará (CE) | ~12.406 | R$ 774 mi | 45.305 |
| 6 | Pará (PA) | ~11.937 | R$ 773 mi | 43.595 |
| 7 | Paraná (PR) | ~10.027 | R$ 914 mi | 36.617 |
| 8 | Pernambuco (PE) | ~9.479 | R$ 586 mi | 34.617 |
| 9 | Rio Grande do Sul (RS) | ~8.784 | R$ 722 mi | 32.079 |
| 10 | Santa Catarina (SC) | ~8.746 | R$ 822 mi | 31.940 |
| 11 | Goiás (GO) | ~7.923 | R$ 605 mi | 28.934 |
| 12 | Paraíba (PB) | ~7.137 | R$ 409 mi | 26.065 |
| 13 | Espírito Santo (ES) | ~5.626 | R$ 367 mi | 20.547 |
| 14 | Mato Grosso do Sul (MS) | ~5.033 | R$ 398 mi | 18.382 |
| 15 | Amazonas (AM) | ~4.490 | R$ 275 mi | 16.396 |
| 16 | Alagoas (AL) | ~4.428 | R$ 226 mi | 16.172 |
| 17 | Rio Grande do Norte (RN) | ~4.168 | R$ 264 mi | 15.222 |
| 18 | Maranhão (MA) | ~4.001 | R$ 240 mi | 14.612 |
| 19 | Piauí (PI) | ~3.825 | R$ 261 mi | 13.968 |
| 20 | Mato Grosso (MT) | ~3.446 | R$ 290 mi | 12.583 |
| 21 | Tocantins (TO) | ~3.121 | R$ 178 mi | 11.398 |
| 22 | Sergipe (SE) | ~2.730 | R$ 178 mi | 9.969 |
| 23 | Rondônia (RO) | ~1.936 | R$ 156 mi | 7.072 |
| 24 | Acre (AC) | ~844 | R$ 55 mi | 3.084 |
| 25 | Roraima (RR) | ~726 | R$ 39 mi | 2.650 |
| 26 | Amapá (AP) | ~596 | R$ 40 mi | 2.177 |
| BRASIL | ~210.922 | R$ 15,76 bi | 770.279 | |
Fonte: CNM/RAIS 2024 (totais por UF). Estimativas de educação calculadas pelo PEBSP aplicando a proporção nacional do setor (27,4% das contratações e 32,6% do impacto financeiro) ao total de cada estado. Valores referentes à PEC 8/2025.
O que esses números escondem
Olhar apenas a tabela pode dar a falsa impressão de que os estados menores estão fora de perigo. Não estão. Um déficit de 726 professores em Roraima representa uma pressão proporcional muito maior sobre a rede municipal do que 30 mil em São Paulo — porque a estrutura de reserva técnica, os processos seletivos simplificados e a capacidade orçamentária são infinitamente mais frágeis nos estados do Norte e do Nordeste.
Outro ponto que os dados não capturam diretamente: municípios de pequeno porte — que representam a esmagadora maioria dos 5.568 municípios brasileiros — concentram professores com jornadas de exatamente 40 horas, a carga mais afetada pela PEC. Numa escola municipal com 8 professores, repor o equivalente a 1 colega a mais significa abrir processo seletivo, pagar salário adicional e garantir enquadramento no estatuto municipal. Para prefeituras que já fecham o ano no limite do gasto com pessoal, isso não é simples.
Quando o Congresso decide
O presidente da Câmara, Hugo Motta, sinalizou que pretende colocar as propostas em votação antes do recesso eleitoral de 2026. Com quatro textos em disputa — três PECs reduzindo para 36 horas e o PL do governo limitando a 40 horas —, o resultado final ainda é incerto. O que os dados mostram com clareza é que o debate público tem sido focado quase exclusivamente no setor privado, enquanto o impacto no serviço público — e especialmente na educação básica — segue subrepresentado.
Para os professores da rede municipal, a questão prática é objetiva: jornada reduzida sem concurso garantido e sem recursos federais de suporte significa ou menos professor em sala, ou sobrecarga transferida para quem ficou. Nenhum dos dois resultados serve a quem já enfrenta condições de trabalho desgastantes.
📋 Nota metodológica
Fonte primária: Estudo Técnico CNM — O impacto da redução da jornada de trabalho para os Municípios (maio de 2026)
Base de dados: RAIS 2024
Estimativas por UF (educação): calculadas pelo PEBSP aplicando a proporção nacional do setor educação (27,4% das contratações; 32,6% do impacto financeiro) ao total de cada estado fornecido pelo estudo
⚠️ Os dados de déficit docente por estado são estimativas derivadas, não valores diretos do estudo da CNM.



