O Brasil tem 63,9 milhões de pessoas com 15 anos ou mais fora da escola sem educação básica completa, o que corresponde a 37,3% da população adulta, segundo o novo relatório da Rede EJA e Inclusão Produtiva. O levantamento mostra ainda que a Educação de Jovens e Adultos (EJA) atende apenas 1,5% da demanda potencial, enquanto o número de municípios sem turmas da modalidade mais que dobrou entre 2008 e 2024.
Um retrato da exclusão educacional
O relatório apresenta um panorama amplo da baixa escolaridade no país e mostra que o problema não está restrito a uma faixa etária específica. São 44,7 milhões de pessoas sem concluir o ensino fundamental e 19,3 milhões que não completaram o ensino médio. Em grande parte, trata-se de uma população que já passou da idade escolar regular e que permaneceu distante das políticas de reincorporação.
Os dados também revelam desigualdades territoriais importantes. As maiores concentrações de pessoas fora da escola sem educação básica completa estão nas regiões Norte e Nordeste, embora o fenômeno também apareça em áreas do interior do Sudeste e do Centro-Oeste.
Quem está fora da escola
A composição desse grupo ajuda a entender por que a resposta pública precisa ser diferenciada. A população fora da escola e sem educação básica completa é formada majoritariamente por pessoas pretas ou pardas, que representam 63,9% do total, com presença equilibrada entre homens e mulheres. O relatório destaca que a exclusão educacional acompanha desigualdades históricas de renda, raça e território.
Em termos de faixa etária, há perfis distintos. Entre os mais velhos, predominam pessoas com baixa escolaridade acumulada ao longo da vida. Entre os mais jovens, especialmente aqueles com ensino médio incompleto, o desafio é outro: há avanço parcial da trajetória escolar, mas sem conclusão.
Por que muitos não voltam a estudar
O levantamento mostra que as razões para interromper os estudos e para não retornar à escola variam conforme o gênero. Entre os homens, o principal obstáculo é o trabalho. Entre as mulheres, pesam mais as responsabilidades com filhos, casa e cuidado familiar. Isso significa que abrir vagas, por si só, não resolve o problema.
O relatório também aponta que três em cada quatro matrículas da EJA no ensino fundamental e duas em cada três no ensino médio estão no período noturno. A rigidez de horários, porém, dificulta o acesso de trabalhadores informais, profissionais que trabalham à noite e mães e avós responsáveis por crianças pequenas.
A EJA atende pouco da demanda
A EJA é a principal política pública para jovens, adultos e idosos que não concluíram a educação básica na idade esperada, mas sua cobertura ainda é limitada. Hoje, apenas 1,5% da demanda potencial está matriculada na modalidade. O relatório mostra que a queda da demanda ao longo dos anos não se explica, em sua maior parte, pela atuação da EJA, mas pelo envelhecimento e pela mortalidade da população mais velha.
Na prática, isso significa que o país está perdendo tempo com uma população que ainda poderia ser alcançada. O documento alerta que os próximos anos representam uma janela decisiva para alcançar principalmente as gerações nascidas entre 1960 e 1980.
O custo da baixa escolaridade
Além do impacto social, a incompletude educacional tem efeito econômico direto. O relatório estima que a baixa escolaridade custa ao país cerca de R$ 66 bilhões por ano em renda perdida. A renda domiciliar per capita da população fora da escola sem educação básica completa é de R$ 1.427, o equivalente a pouco mais da metade da renda das pessoas com educação básica concluída.
Também há maior vulnerabilidade no mercado de trabalho. Quem não concluiu o ensino fundamental participa menos da força de trabalho, enfrenta mais informalidade e recebe salários mais baixos. O diploma, nesse caso, não é apenas um título: ele altera as possibilidades concretas de inserção social e econômica.
O que o novo relatório indica
As conclusões do documento vão além do diagnóstico. O relatório defende metas em números absolutos, busca ativa mais forte, financiamento estável, formação docente específica e maior integração entre educação, assistência social e trabalho. Também reforça que políticas de permanência precisam considerar creches, horários flexíveis e percursos formativos integrados.
Outro ponto central é a necessidade de diferenciar a certificação por exame da escolarização efetiva. O relatório reconhece a importância do Encceja, mas alerta que a certificação, sozinha, não substitui a aprendizagem desenvolvida em trajetórias presenciais ou híbridas consistentes.
Um desafio para a política educacional
O novo relatório mostra que o Brasil não enfrenta apenas um problema de matrícula, mas um desafio estrutural de reincorporação escolar. A EJA continua sendo uma política essencial para garantir o direito à educação, reduzir desigualdades e ampliar oportunidades de trabalho e renda.
Sem expansão da oferta, busca ativa e condições reais de permanência, milhões de brasileiros seguirão fora da escola e longe das oportunidades que a conclusão da educação básica ainda pode abrir.
Nome do edital/relatório: Relatório Nacional sobre a Rede EJA e Inclusão Produtiva
Instituição: Rede EJA e Inclusão Produtiva
Coordenação: Fundação Roberto Marinho, Fundação Bradesco, Fundação Itaú / Itaú Educação e Trabalho, Fundação Arymax, Ação Educativa, entre outras instituições parceiras
Prazo: Não se aplica
Taxa de inscrição: Não se aplica



