O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa entrou em vigor no Brasil em 1º de janeiro de 2009 e foi adotado de forma obrigatória a partir de 2016. Mais de uma década depois, muitos escritores, professores e concurseiros ainda aplicam regras que deixaram de existir — ou evitam formas que passaram a ser obrigatórias. Este artigo reúne as 5 mudanças mais importantes trazidas pela reforma, com exemplos práticos e o que vale hoje na norma vigente.
2009
Acordo Ortográfico entra em vigor no Brasil
2016
Adoção obrigatória — período de transição encerrado
8
Países signatários do Acordo — Portugal, Brasil e 6 países africanos
Por que ainda existem tantos erros depois de mais de 15 anos
A transição foi longa — o Brasil concedeu sete anos de adaptação antes de tornar o acordo obrigatório em 2016 — e gerou uma coexistência prolongada das duas grafias. Livros didáticos, materiais impressos e conteúdos digitais produzidos antes de 2016 continuam circulando com a ortografia antiga. O resultado é que muita gente aprendeu as regras novas de forma parcial ou contraditória.
As mudanças mais impactantes envolvem trema, hífen, acento diferencial e acentuação de ditongos. Cada uma delas tem lógica própria e vale entender não apenas o resultado final, mas o motivo da mudança.
As 5 regras abordadas neste artigo
- Extinção do trema em palavras de origem portuguesa
- Queda do acento diferencial em pares como “pelo/pélo” e “polo/pólo”
- Mudanças no hífen — prefixos e compostos
- Perda do acento nos ditongos abertos “ei” e “oi”
- Supressão do acento em verbos com duplo “i” e duplo “e”
1. O trema desapareceu das palavras de origem portuguesa
O trema — os dois pontos sobre o “u” — foi eliminado de todas as palavras de origem portuguesa e latina pelo Acordo Ortográfico. Ele sobrevive apenas em nomes próprios estrangeiros e seus derivados.
Como era antes de 2009:
- freqüente · seqüência · tranqüilo · lingüiça · argüir · averigüe
Como é hoje (obrigatório desde 2016):
- frequente · sequência · tranquilo · linguiça · arguir · averigue
Exceções — o trema permanece em:
- Nomes próprios estrangeiros: Müller, Bündchen, Hütte
- Derivados desses nomes: mülleriano
Erro comum: escrever “freqüente” com trema em redações, e-mails corporativos e materiais didáticos. Em provas realizadas após 2016, essa grafia é considerada erro ortográfico.
2. O acento diferencial foi eliminado da maioria dos pares
O acento diferencial era usado para distinguir palavras com a mesma grafia mas significados diferentes. O Acordo eliminou esse acento da grande maioria dos pares — mantendo-o apenas onde a ambiguidade é relevante para o sentido.
Pares que perderam o acento diferencial:
| Antes (grafia antiga) | Hoje (grafia correta) | Significados |
|---|---|---|
| pélo / pelo | pelo / pelo | cabelo · contração “por + o” |
| pólo / polo | polo / polo | extremidade · esporte · contração |
| côa / coa | coa / coa | verbo coar · contração “com + a” |
| pára / para | para / para | verbo parar · preposição |
| péla / pela | pela / pela | verbo pelar · contração “por + a” |
Pares que mantiveram o acento diferencial:
- pôde (passado de poder) × pode (presente) — mantido
- pôr (verbo) × por (preposição) — mantido
- vêm (3ª pessoa plural de vir) × vem (3ª pessoa singular) — mantido
Atenção: “pára” com acento é erro desde 2009. A forma correta hoje é sempre para, seja a preposição ou o verbo. O contexto resolve a ambiguidade.
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3. O hífen mudou — e muito
As regras do hífen foram as que mais geraram controvérsia e as que mais persistem com erros. O Acordo reformulou o uso do hífen em palavras formadas por prefixos e em compostos, com critérios baseados na letra inicial do segundo elemento.
Regra geral para prefixos: usa-se hífen quando o segundo elemento começa com a mesma letra com que termina o prefixo, ou quando começa com “h”.
Casos com hífen obrigatório:
- Prefixo termina igual à letra inicial do radical: micro-ondas, auto-observação, anti-inflamatório, semi-interno
- Radical começa com “h”: anti-higiênico, super-homem, pré-história, co-herdeiro
- Prefixos “ex-“, “vice-“, “soto-“, “além-“, “aquém-“, “recém-“, “sem-“: ex-aluno, vice-diretor, recém-nascido, sem-teto
Casos sem hífen (mudança em relação à grafia antiga):
- antiácido (antes: anti-ácido) — vogais diferentes, sem hífen
- autoescola (antes: auto-escola)
- contraindicado (antes: contra-indicado)
- infraestrutura (antes: infra-estrutura)
- semicírculo (antes: semi-círculo)
- coautor (antes: co-autor)
- socioeconômico (antes: sócio-econômico)
Pegadinha frequente em concursos: “anti-inflamatório” continua com hífen porque o prefixo “anti” termina em vogal e o radical começa com a mesma vogal “i”. Já “antialérgico” não leva hífen porque as vogais são diferentes.
4. Os ditongos abertos “ei” e “oi” perderam o acento em palavras paroxítonas
Antes do Acordo, palavras paroxítonas com os ditongos abertos “éi” e “ói” levavam acento agudo. A reforma eliminou esse acento — porque em Portugal a pronúncia desses ditongos é fechada, e o acordo buscou uma grafia comum entre os países lusófonos.
Palavras que perderam o acento:
- ideia (antes: idéia)
- assembleia (antes: assembléia)
- plateia (antes: platéia)
- europeia (antes: européia)
- heroico (antes: heróico)
- paranoico (antes: paranóico)
- jiboia (antes: jibóia)
Atenção: a regra vale para paroxítonas. Oxítonas como “herói”, “anzóis” e “papéis” mantêm o acento, pois são acentuadas pela regra geral das oxítonas terminadas em ditongo.
5. Verbos com duplo “i” e duplo “e” perderam o acento circunflexo
Antes do Acordo, certas formas verbais da segunda e terceira conjugação levavam acento circunflexo para indicar a vogal tônica fechada. Essa distinção foi eliminada.
Verbos da segunda conjugação — formas que perderam o acento:
- ele crê → continua com acento (oxítona terminada em “e”) ✓
- eles creem (antes: crêem) → sem acento agora ✓
- eles leem (antes: lêem) → sem acento agora ✓
- eles veem (antes: vêem) → sem acento agora ✓
Verbos com duplo “i” que perderam acento:
- ele agride → continua sem acento ✓
- nós agriíamos (antes: agriíamos com acento em alguns usos) → formas normalizadas ✓
Casos que mantêm o acento circunflexo:
- pôde × pode — mantido para diferenciar passado e presente
- pôr × por — mantido para diferenciar verbo e preposição
- têm / vêm (plural) × tem / vem (singular) — mantido para diferenciar número
Resumo das 5 mudanças
- Trema eliminado em palavras de origem portuguesa — frequente, sequência, tranquilo
- Acento diferencial suprimido na maioria dos pares — para, pelo, polo (mantido em pôde, pôr, vêm)
- Hífen reformulado em prefixos — autoescola, infraestrutura, mas anti-inflamatório
- Ditongos “ei” e “oi” sem acento em paroxítonas — ideia, assembleia, heroico
- Duplo “e” e “i” sem acento em verbos — leem, veem, creem
O que isso significa para provas e concursos
Desde 2016, qualquer prova aplicada no Brasil deve adotar exclusivamente a nova ortografia. Escrever “idéia”, “freqüente”, “pára” (verbo), “anti-ácido” ou “lêem” em uma redação de concurso ou no ENEM é considerado erro ortográfico, com desconto de pontos na competência de norma padrão.
Para o professor que elabora provas e materiais didáticos, o impacto é direto: qualquer material produzido com a grafia antiga precisa ser revisado antes de ser entregue aos alunos — ou usado como exemplo de forma explicitamente identificada como grafia histórica.



