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Pesquisa da Fiocruz derruba mito da “geração nem-nem” entre jovens brasileiros

Um estudo do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fiocruz (Icict/Fiocruz), em parceria com a Agenda Jovem Fiocruz e o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), derruba a ideia de que existe uma “geração nem-nem” entre os jovens brasileiros. Segundo o levantamento, apenas 2% das jovens mulheres de 15 a 29 anos não estudam, não trabalham e não realizam nenhum tipo de trabalho doméstico ou de cuidado — um percentual ínfimo diante da narrativa de que parte da juventude estaria inativa.

Estudo do Icict/Fiocruz mostra que apenas 2% dos jovens não estuda, trabalha ou cuida

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O estudo Juventudes e a política de cuidados: anotações sobre a condição juvenil, divulgado em junho de 2026, cruzou dados da PNAD Contínua e do Censo Demográfico do IBGE sobre quatro dimensões da vida juvenil: frequência escolar, inserção no mercado de trabalho, trabalho doméstico e trabalho de cuidado não remunerado. A conclusão central é que a suposta “inatividade” atribuída a parte da juventude não se sustenta quando se observa o trabalho de cuidado — historicamente invisibilizado nas estatísticas oficiais.

De acordo com o levantamento, a parcela de jovens mulheres que não está envolvida em nenhuma das quatro atividades analisadas é de 0,7% entre 15 e 17 anos, 2,6% entre 18 e 24 anos e 1,7% entre 25 e 29 anos. Ou seja: quem é rotulado como “nem-nem” está, na maioria dos casos, absorvido por jornadas intensas de cuidado não remunerado dentro de casa.

Estudar, trabalhar e cuidar ao mesmo tempo

Os números mostram uma juventude sobrecarregada, não ociosa. Entre as adolescentes de 15 a 17 anos, 78,4% conciliam a escola com trabalho doméstico ou de cuidado. A partir dos 18 anos, a dupla jornada se torna ainda mais presente: 42,3% das jovens de 18 a 24 anos e 57,4% das jovens de 25 a 29 anos estão ocupadas no mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, realizam trabalho doméstico ou de cuidado não remunerado — proporção que se iguala à das mulheres adultas.

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Há ainda um grupo que enfrenta a chamada tripla jornada: estudar, trabalhar remuneradamente e cuidar de outras pessoas ao mesmo tempo. Essa sobreposição atinge uma em cada dez jovens mulheres — o equivalente a mais de 2,6 milhões de moças no Brasil.

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Desigualdade de gênero e raça desde a adolescência

O peso do cuidado não remunerado recai de forma desproporcional sobre as mulheres, e essa diferença já aparece na adolescência. Enquanto os jovens homens dedicam em média 8,9 horas semanais ao trabalho doméstico e de cuidado aos 15-17 anos, as jovens mulheres já dedicam 12,7 horas na mesma faixa etária. Entre 25 e 29 anos, essa média sobe para 21,1 horas semanais entre as mulheres — próxima à carga das mulheres adultas.

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A desigualdade racial aprofunda esse quadro. Mulheres negras de 25 a 29 anos dedicam 109,4% mais horas ao trabalho doméstico e de cuidado do que homens brancos da mesma idade, e 18% mais do que mulheres brancas. Segundo o estudo, essa sobrecarga contribui para que 33% das jovens negras não estejam nem estudando nem ocupadas no mercado de trabalho — não por opção, mas em razão do tempo consumido pelo cuidado de outras pessoas.

Por que o rótulo “nem-nem” é impreciso

O termo “nem-nem” costuma ser usado para descrever jovens que “não estudam nem trabalham”, mas ignora uma terceira atividade central na vida de milhões de brasileiras: o cuidado. Segundo dados citados no estudo, a responsabilidade por esse tipo de trabalho era a principal razão para que 56% das jovens mulheres estivessem fora do mercado de trabalho e 31% estivessem fora da escola, conforme nota técnica da Secretaria Nacional de Cuidados e Família (SNCF/MDS) de 2023.

Para os pesquisadores, isso evidencia que a “inatividade” muitas vezes atribuída à juventude é, na prática, trabalho não remunerado e não reconhecido — o que reforça a necessidade de políticas públicas que considerem o cuidado como uma atividade central na vida juvenil, e não como algo à margem das estatísticas de trabalho e educação.

O que já está sendo feito

A Política Nacional de Cuidados, instituída pela Lei nº 15.069/2024, reconhece o cuidado como trabalho, necessidade e direito. Uma das ações do Plano Nacional de Cuidados Brasil que Cuida é a instalação de Cuidotecas em instituições de ensino superior e de qualificação profissional — espaços gratuitos que acolhem crianças de 3 a 12 anos enquanto seus responsáveis, muitas vezes jovens, estudam, se qualificam ou trabalham.

O objetivo declarado da política é reduzir os obstáculos que impedem jovens — sobretudo mulheres — de permanecerem na escola ou no mercado de trabalho por conta de responsabilidades de cuidado, rompendo trajetórias de desigualdade antes que se consolidem.

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Daniel Silva

Daniel Silva é Editor do PEBSP.com. Formado em Pedagogia e Mestre em Educação, gosta de escrever sobre notícias de cursos, concursos e processos seletivos.

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