70,7% dos alunos que ingressam em Administração EaD na rede privada não chegam ao diploma. Em Pedagogia EaD, a taxa de desistência é de 54,2%. No EaD privado como um todo, 64,1% dos estudantes abandonaram o curso entre 2019 e 2023. Esses números são do 15º Mapa do Ensino Superior no Brasil, publicado pelo Instituto Semesp em 2025 — e colocam em xeque um dos argumentos mais usados na hora de vender uma matrícula: a facilidade do ensino a distância.
EaD ou presencial: qual graduação tem maior chance de conclusão no Brasil?
A escolha entre EaD e presencial raramente é feita com base em dados. É feita com base em preço, conveniência de horário, proximidade de polo ou simplesmente pela oferta disponível na região. Este artigo reúne os números que deveriam entrar nessa conta: taxas de evasão por modalidade, o que a pesquisa de empregabilidade do Semesp revela sobre formados nas duas modalidades, e o impacto concreto do Decreto nº 12.456/2025 — que reorganizou completamente as regras do EaD no Brasil e proibiu que licenciaturas, cursos de saúde e engenharias sejam ofertados 100% a distância.
O Brasil tem mais alunos do que nunca — mas também mais desistências
O ensino superior brasileiro atingiu 10,2 milhões de matrículas em 2024, alta de 2,5% em relação ao ano anterior, segundo o Mapa do Ensino Superior 2026 (Semesp). O crescimento foi puxado inteiramente pela rede privada (+3,2%), que já concentra 79,8% dos alunos. O motor dessa expansão é o EaD: desde 2016, o número de ingressantes em cursos a distância superou os presenciais, e em 2020 chegou a representar 73,2% dos novos alunos de licenciatura.
O problema está na outra ponta. Crescer em matrículas não é a mesma coisa que crescer em formados — e os dados mostram que o EaD amplia o acesso ao ensino superior, mas enfrenta um gargalo histórico de permanência.
Fontes: 15º Mapa do Ensino Superior, Instituto Semesp (2025) — dados de desistência acumulada ciclo 2019–2023; Mapa do Ensino Superior 2026 — dados de evasão anual 2024.
O que esses números significam para quem está decidindo onde se matricular
A evasão tem duas consequências práticas para o estudante. A primeira é óbvia: quem não conclui não recebe o diploma e não tem retorno sobre o investimento de tempo e dinheiro. A segunda é menos discutida: a alta evasão não afeta só quem abandona o curso — ela reflete condições de ensino que impactam todos os matriculados.
O 15º Mapa do Semesp associa a evasão mais elevada nas grandes instituições privadas de EaD à lógica de escala adotada nesse modelo: nas mantenedoras classificadas como de mega porte, a taxa de desistência acumulada chegou a 69,2%. Nas pequenas instituições, ficou em 53,3%. Quanto maior o grupo educacional, maior tende a ser a evasão — dado que aponta para uma relação entre industrialização do ensino e abandono.
Para o professor da rede pública que está avaliando uma segunda graduação, esses dados têm um significado específico: a probabilidade estatística de concluir um curso EaD em grandes grupos privados é menor do que a de abandoná-lo. Isso não inviabiliza a escolha — mas muda o peso que ela carrega.
O Decreto nº 12.456/2025: o que mudou nas regras do EaD no Brasil
Publicado em 19 de maio de 2025, o Decreto nº 12.456/2025 institui o novo marco regulatório da educação a distância no ensino superior brasileiro. A mudança é estrutural — não se trata de um ajuste pontual, mas de uma reorganização completa dos formatos de oferta de graduação no país.
| Formato | Definição segundo o Decreto | Exigência mínima de presencialidade |
|---|---|---|
| Presencial | Aulas majoritariamente em sala física com professor | Mínimo 70% de carga horária presencial (pode ter até 30% a distância) |
| Semipresencial | Combinação estruturada de presencial e a distância | Mínimo 30% presencial + 20% atividades síncronas mediadas |
| A distância (EaD) | Predominantemente online, com polos de apoio | Mínimo 20% presencial ou síncrono + provas presenciais obrigatórias. Nunca 100% online. |
O Art. 9º do Decreto veda a oferta a distância (inclusive semipresencial) para os seguintes grupos:
Pedagogia
Medicina
Enfermagem
Odontologia
Psicologia
Direito
Engenharias
Saúde e Bem-Estar
O que acontece com os cursos que já estavam autorizados: Segundo o MEC, os cursos EaD autorizados antes do decreto que se enquadram nas vedações entrarão em processo de extinção — o status no e-MEC foi alterado para “em extinção” após 90 dias da publicação (20/mai/2025). A instituição não pode mais matricular novos alunos nesses cursos. Quem já estava matriculado antes da mudança de status tem direito a concluir no formato original.
O que o decreto muda especificamente para o professor
Para o professor da rede pública que está pensando em uma segunda licenciatura — ou qualquer licenciatura —, o impacto é direto:
Licenciatura 100% online, sem nenhum momento presencial. Quem buscar esse tipo de oferta para nova matrícula não encontrará cursos legais — e, se encontrar, a instituição está operando fora da regulação do MEC.
Licenciatura semipresencial com polo de apoio: mínimo 30% de atividades presenciais + 20% síncronas. Essa modalidade continua autorizada e é a opção para quem precisa de flexibilidade mas quer cursar uma licenciatura. A UAB (Universidade Aberta do Brasil) também segue operando normalmente — sua estrutura já era compatível com as novas regras.
Checar no e-MEC (emec.mec.gov.br) se o curso está com status “ativo” — não “em extinção”. Verificar se o formato é descrito como semipresencial (não EaD puro). Confirmar se há polo de apoio na sua cidade ou região para os momentos presenciais obrigatórios.
EaD e presencial têm a mesma empregabilidade? O que os dados mostram
O diploma EaD tem a mesma validade legal que o presencial — desde que a instituição seja reconhecida pelo MEC. A legislação brasileira (LDB, art. 80) equipara os títulos das duas modalidades, e o diploma não informa ao empregador se o curso foi presencial ou a distância. Do ponto de vista jurídico, não há distinção.
Do ponto de vista prático, o debate é mais complexo. A IV Pesquisa de Empregabilidade do Semesp (2025) — realizada com 5.681 egressos — não segmentou os resultados por modalidade de ensino de forma direta, o que limita a comparação direta entre formados EaD e presenciais. O que a pesquisa evidencia indiretamente é que cursos com alta taxa de evasão tendem a concentrar formados com menor tempo de dedicação prática e menor desenvolvimento de redes de contato profissional — dois fatores relevantes para a inserção no mercado.
Para concursos públicos no magistério, a questão é mais simples: o que importa é o diploma reconhecido pelo MEC. Um professor formado por uma licenciatura semipresencial em instituição credenciada tem as mesmas condições de participar de concursos e processos seletivos da rede pública que um formado no presencial. A progressão na carreira por titulação também reconhece os dois.
EaD, semipresencial ou presencial — comparativo para a decisão
| Critério | EaD clássico | Semipresencial | Presencial |
|---|---|---|---|
| Taxa de evasão (privada) | 41,6% ao ano (2024) | Intermediária (sem dado isolado) | 24,8% ao ano (2024) |
| Custo mensal (média privada) | R$ 100–600 | R$ 300–1.200 | R$ 500–3.000+ |
| Flexibilidade de horário | Alta | Média-alta | Baixa-média |
| Validade do diploma | Igual (MEC) | Igual (MEC) | Igual (MEC) |
| Licenciatura disponível? | ❌ Proibido (Decreto 12.456/2025) | ✅ Permitido | ✅ Permitido |
| Interação com colegas e professores | Baixa (assíncrona) | Média (presencial + online) | Alta |
| Opções gratuitas | UAB (polos presenciais) | UAB, IFs, ProUni | SISU, ProUni, IFs, FIES |
| Recomendado para professor que quer licenciatura | Não (proibido legalmente) | Sim, se há polo na cidade | Sim (melhor taxa de conclusão) |
O que verificar antes de se matricular — seja qual for a modalidade
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O que os dados não respondem
Os dados de evasão do Semesp medem desistência acumulada em janelas de 4 a 5 anos — cursos com taxa de 64% de evasão não significam que 64% abandonam no primeiro semestre, mas que, ao longo de todo o ciclo, essa proporção não chega ao diploma. A evasão tem causas múltiplas: financeiras, de saúde, de mudança de prioridade, de baixa qualidade do curso. O dado não distingue esses fatores. A comparação de empregabilidade entre EaD e presencial não tem dados públicos robustos e comparáveis no Brasil — a IV Pesquisa do Semesp não faz essa segmentação de forma sistemática. As regras do Decreto 12.456/2025 têm prazo de adaptação até maio de 2027 para as IES; entre 2025 e 2027 pode haver período de transição com regras ainda sendo implementadas. Sempre verificar o e-MEC antes de qualquer matrícula.
| Evasão Administração e Pedagogia EaD | Instituto Semesp, 15º Mapa do Ensino Superior no Brasil (2025) |
| Evasão anual EaD e presencial (2024) | Instituto Semesp, Mapa do Ensino Superior no Brasil 2026 (mar/2026) |
| Total de matrículas e crescimento EaD | Instituto Semesp, Mapas do Ensino Superior 2025 e 2026; INEP/MEC Censos da Educação Superior |
| Evasão acumulada rede privada 2020–2024 | Instituto Semesp, Mapa do Ensino Superior 2026 (A Crítica de Campo Grande, mar/2026) |
| Novo marco regulatório EaD | Decreto nº 12.456, de 19 de maio de 2025 (DOU 20/05/2025, Seção 1, p. 1) |
| Cursos proibidos no EaD e processo de extinção | MEC — Portaria de transição (mai/2025); PLC Advogados análise (ago/2025) |
| Formatos e percentuais de presencialidade | IFMG — Resumo Decreto nº 12.456/2025; Conjur análise (mai/2025) |
| Diploma EaD — validade legal | LDB, art. 80; MEC — credenciamento de IES; ABRH-Digital |
| Empregabilidade por curso | Instituto Semesp, IV Pesquisa de Empregabilidade (jan/2025) |



