Conciliar estudos, trabalho e responsabilidades de cuidado é uma realidade para a maioria dos jovens brasileiros — e para quem cobre editais de cursos livres, especializações e processos seletivos voltados a estudantes e professores, entender esse cenário ajuda a explicar por que tantos candidatos enfrentam dificuldade para se manter em formações continuadas. Um estudo do Icict/Fiocruz, em parceria com a Agenda Jovem Fiocruz e o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), traz dados atualizados sobre essa sobreposição de jornadas e aponta quais políticas públicas já existem para reduzi-la.
Fiocruz mostra que 1,2 milhão de estudantes concilia formação com trabalho de cuidado
O levantamento “Juventudes e a política de cuidados”, divulgado em junho de 2026, mostra que conciliar estudo com trabalho de cuidado não remunerado é a regra, não a exceção, entre jovens brasileiras. Entre as estudantes de 18 a 24 anos, 21,5% (802 mil) acumulam os estudos com trabalho de cuidado direto de outras pessoas, e 9,1% (340 mil) ainda somam a essas duas jornadas o trabalho remunerado. Entre as estudantes de 25 a 29 anos, a sobreposição sobe para 29,3% (367 mil), com 18% (225 mil) vivendo a tripla jornada completa: estudo, trabalho remunerado e cuidado.
Estudantes de 18-24 anos
21,5%
estudam e cuidam de alguém
Estudantes de 25-29 anos
29,3%
estudam e cuidam de alguém
18 a 29 anos
~1,2 milhão
de estudantes cuidam de alguém
Por que isso importa para quem busca cursos e editais
Para quem acompanha processos seletivos de especializações UAB/CAPES, cursos livres de institutos federais ou o Prova Nacional Docente (PND), esses números ajudam a explicar um fenômeno recorrente: candidatos aprovados que não conseguem concluir a formação, ou que solicitam prorrogação de prazos e flexibilização de carga horária. A pesquisa reforça que grande parte dessa dificuldade não é falta de interesse, mas falta de tempo — consumido por responsabilidades de cuidado que raramente aparecem nas estatísticas de evasão escolar.
O estudo também mostra que essa realidade atinge principalmente mulheres jovens de estratos populares, o mesmo público que mais busca bolsas, cursos gratuitos e processos seletivos com critérios de ação afirmativa nas editorias que cobrem editais públicos.
A responsabilidade pelo trabalho de cuidado era a principal razão para que 56% das jovens mulheres estivessem fora do mercado de trabalho e 31% estivessem fora da escola, segundo nota técnica da SNCF/MDS de 2023 citada no estudo.
As Cuidotecas: política pública já em implementação
Uma das respostas do governo federal a esse cenário é a Cuidoteca, serviço público e gratuito previsto no Plano Nacional de Cuidados Brasil que Cuida. O espaço acolhe crianças de 3 a 12 anos, com e sem deficiência, enquanto mães, pais ou responsáveis estudam, se qualificam profissionalmente ou trabalham — inclusive em períodos que excedem a jornada escolar das crianças.
A Cuidoteca está sendo implementada em parceria com universidades, institutos federais de educação profissional e tecnológica e prefeituras. Na prática, isso significa que instituições que já oferecem cursos e processos seletivos cobertos por editais — como IFs e universidades federais — podem vir a contar com esse suporte para seus estudantes com responsabilidades familiares de cuidado.
Público atendido
Crianças de 3 a 12 anos
Implementação
Universidades e IFs
Custo
Gratuito
Política Nacional de Cuidados: o marco legal
A base legal dessas ações é a Lei nº 15.069/2024, que instituiu a Política Nacional de Cuidado (PNaC) no Brasil. A lei reconhece o cuidado como trabalho, necessidade e direito, e estabelece como uma de suas diretrizes “promover e incentivar ações que permitam a compatibilização entre o trabalho remunerado, a educação e as responsabilidades familiares relacionadas ao cuidado”.
Entre os públicos prioritários da política estão justamente as pessoas que cuidam — remuneradas ou não — e que têm responsabilidades familiares de cuidado, o que inclui diretamente milhões de jovens estudantes.
O que isso significa na prática para estudantes e professores
Para professores da rede pública que buscam se qualificar por meio de especializações EaD, cursos de extensão ou o PND, e que também têm responsabilidades de cuidado — de filhos, de pais idosos ou de outros dependentes —, os dados da Fiocruz reforçam um ponto importante: a dificuldade em concluir uma formação não é individual, é estrutural. Reconhecer essa sobreposição de jornadas é o primeiro passo para que editais, cronogramas e políticas de permanência levem em conta essa realidade.
À medida que mais instituições de ensino superior e institutos federais aderem ao Plano Brasil que Cuida, a expectativa é que o suporte via Cuidotecas se torne mais acessível para estudantes-trabalhadoras que hoje enfrentam a tripla jornada sozinhas.



