Entre 2021 e 2025, a participação do setor privado nas matrículas do ensino médio cresceu em 26 dos 27 estados brasileiros. No mesmo período, as redes públicas perderam 501 mil alunos nessa etapa. O boletim da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), publicado em abril de 2026, documenta esse avanço com dados do Censo Escolar e nomeia o fenômeno com precisão: não é coincidência, não é preferência espontânea das famílias — é o resultado de um processo que combina retração do Estado, fechamento de escolas e precarização do ensino público. E existe apenas um estado que conseguiu reverter a tendência.
📄 Fonte deste artigo
Dados e Luta: Informativo CNTE — Educação Pública em Dados
Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação — abril de 2026
Dados baseados nos microdados do Censo Escolar 2021–2025 (Inep/MEC).
Setor privado amplia participação no ensino médio em 26 estados entre 2021 e 2025, aponta CNTE
Em 2021, 12% das matrículas do ensino médio brasileiro estavam em escolas privadas. Em 2025, esse percentual chegou a 14,1%. São dois pontos percentuais em quatro anos — um crescimento que, em termos absolutos, representa centenas de milhares de novos alunos no setor privado enquanto a rede pública encolhia.
O boletim da CNTE destaca que o crescimento relativo do setor privado não se explica apenas pelo aumento de matrículas privadas — ele é ampliado pela queda simultânea das matrículas públicas. Quando a rede pública perde 501 mil alunos no ensino médio entre 2021 e 2025, qualquer crescimento privado — mesmo modesto em números absolutos — representa avanço expressivo em participação relativa.
Os quadrantes da CNTE: como classificar cada estado
Para organizar os dados por estado, o boletim da CNTE utiliza uma matriz de quatro quadrantes que combina dois critérios: o nível atual de participação privada no ensino médio (alta ou baixa) e a trajetória recente desse indicador (crescendo ou recuando). Isso permite classificar os estados não apenas pelo onde estão, mas pelo para onde estão indo.
🔴 Privatização consolidada
Alta participação privada e participação crescendo. O pior cenário: o setor privado já é dominante e segue avançando. Concentrado em estados do Centro-Sul de maior renda.
🟠 Privatização emergente
Baixa participação privada, mas crescendo. Estados que ainda têm predominância pública, mas estão na trajetória de perda. Concentrado no Norte e Nordeste.
🟢 Privatização revertida
Alta participação privada, mas recuando. O Estado recuperou espaço. Cenário raro — apenas Sergipe se enquadra aqui no período analisado.
🔵 Rede pública estável
Baixa participação privada e estável ou recuando. Rede pública dominante e mantendo terreno. Estados menos vulneráveis à tendência nacional.
A maior parte dos estados brasileiros está distribuída entre os quadrantes vermelho e laranja — ou seja, ou já convive com alta participação privada no ensino médio, ou está caminhando nessa direção. O azul representa uma minoria de estados com rede pública robusta e tendência estável.
O caso Sergipe: o único estado que reverteu a tendência
No universo de 27 estados, Sergipe é o único que conseguiu reduzir a participação privada no ensino médio entre 2021 e 2025 — em um contexto em que todos os demais foram na direção contrária. O dado é suficientemente raro para merecer análise.
O boletim da CNTE aponta que a reversão em Sergipe está associada a um conjunto de fatores que incluem ampliação de vagas na rede estadual, manutenção de escolas em territórios vulneráveis e políticas de permanência escolar — o que sugere que o avanço privado não é inevitável. Onde o Estado mantém presença ativa, o mercado recua.
💡 O que Sergipe fez diferente
Enquanto outros estados fechavam escolas e recorriam a contratos temporários, Sergipe manteve uma trajetória de investimento na rede estadual de ensino médio. O resultado foi visível nos dados do Censo Escolar 2025: queda na participação privada e expansão relativa das matrículas públicas. O caso mostra que a tendência nacional não é uma lei da natureza.
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São Paulo: quase 1 em cada 5 alunos do ensino médio no setor privado
Entre os estados no quadrante de privatização consolidada, São Paulo se destaca pelo tamanho absoluto do fenômeno. O estado concentra a maior rede privada de ensino médio do país em termos de matrículas, com quase 1 em cada 5 alunos do ensino médio em escola particular. Dado que São Paulo tem a maior rede estadual do país, a escala do avanço privado é expressiva.
O boletim registra que estados com maior concentração de renda tendem a apresentar participação privada mais elevada — o que significa que o mapa da privatização do ensino médio se sobrepõe, em grande medida, ao mapa da desigualdade econômica brasileira. Famílias com maior poder aquisitivo migram para o privado; as demais permanecem dependentes de uma rede pública que, nos mesmos estados, enfrenta os maiores desafios de financiamento e gestão.
501 mil alunos a menos na rede pública: onde foram?
A queda de 501 mil matrículas públicas no ensino médio entre 2021 e 2025 é um dos dados mais impactantes do boletim. Para contextualizar: isso equivale ao tamanho completo de uma rede estadual de médio porte desaparecendo da educação pública em quatro anos.
O boletim identifica três destinos principais para esses alunos:
📊 Para onde foram os 501 mil alunos?
- Migração para o setor privado — famílias que encontraram escolas públicas piores e optaram pelo particular mesmo com custo adicional
- Evasão escolar — jovens que saíram do sistema educacional sem concluir o ensino médio, especialmente em contextos de vulnerabilidade socioeconômica
- Transição demográfica — redução do número de jovens em idade de ensino médio em estados com queda de natalidade mais acelerada, especialmente no Sul e Sudeste
O boletim alerta que a transição demográfica explica parte da queda — mas apenas parte. A análise estado a estado mostra que estados com estrutura demográfica semelhante apresentam trajetórias opostas em termos de matrículas, o que indica que gestão, investimento e política educacional fazem diferença significativa além dos fatores populacionais.
Por que isso é um problema para além dos alunos
O avanço do setor privado no ensino médio não é apenas um dado de política educacional — tem implicações diretas para os professores das redes públicas. Quando a demanda por vagas públicas cai, os gestores estaduais encontram argumento orçamentário para não abrir novos concursos, não ampliar quadros efetivos e não investir em infraestrutura.
O ciclo identificado pelo boletim funciona assim: menos alunos na rede pública → menos pressão por concursos → mais contratos temporários → mais rotatividade → pior qualidade do ensino → mais famílias que podem migram para o privado. É um ciclo de retroalimentação que se move lentamente, mas de forma consistente.
O novo PNE e a contramão do fenômeno
O novo Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado em 2024, estabelece metas explícitas de fortalecimento da rede pública no ensino médio — incluindo a ampliação do ensino em tempo integral e o aumento do percentual de professores efetivos para pelo menos 70% do total. Essas metas estão na contramão exata do que os dados do Censo Escolar 2021–2025 revelam.
Apenas três estados cumprem hoje a meta de 70% de efetivos: Bahia, Rio de Janeiro e Amazonas. Os outros 24 estão abaixo — alguns significativamente. Isso significa que cumprir as metas do PNE exigirá não apenas estabilizar a tendência, mas reverter um processo que já dura pelo menos quatro anos.
Participação privada EM 2021
12%
das matrículas do ensino médio
Participação privada EM 2025
14,1%
+2,1 p.p. em 4 anos
Perda pública no EM
-501 mil
matrículas entre 2021 e 2025
Estados que reverteram
1 de 27
Sergipe — o único outlier positivo
📌 O que você precisa saber
- A participação privada no ensino médio subiu de 12% para 14,1% entre 2021 e 2025
- O avanço ocorreu em 26 dos 27 estados — o único que reverteu foi Sergipe
- As redes públicas perderam 501 mil matrículas no ensino médio no mesmo período
- O avanço privado não é inevitável: onde há investimento público ativo, ele recua
- O ciclo de retroalimentação conecta menos alunos → menos concursos → mais temporários → pior qualidade → mais migração privada
- O novo PNE exige reversão dessa tendência — mas apenas 3 estados cumprem hoje a meta de efetivos
- São Paulo concentra quase 1 em cada 5 alunos do ensino médio no setor privado
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