As escolas estaduais brasileiras estão perdendo alunos em ritmo acelerado — e esse movimento não vai parar. Entre 2010 e 2022, as redes públicas estaduais perderam 26,2% de suas matrículas. Para os próximos dez anos, a projeção é de uma nova queda de 24,9%. Em números absolutos, isso significa que as redes estaduais passarão de 14,7 milhões de alunos em 2022 para pouco mais de 11 milhões em 2034. Um estudo inédito do Movimento Profissão Docente, publicado em agosto de 2025, detalha esse cenário estado a estado e aponta o que ele representa — não apenas como desafio, mas como oportunidade histórica para transformar a qualidade da educação pública brasileira.,
Queda de 24,9% nas matrículas das redes estaduais até 2034: o que os dados revelam sobre o futuro da educação pública e a oportunidade aberta pela transição demográfica.
A queda de matrículas que o Brasil vive hoje não surgiu de repente. Ela é o reflexo de um processo de transição demográfica que começou na década de 1960, quando a taxa de fecundidade era de 6,28 filhos por mulher. Desde então, esse número caiu de forma contínua até atingir 1,55 filho por mulher em 2022, segundo o IBGE — bem abaixo do chamado nível de reposição populacional, que é de 2,1 filhos por mulher.
O efeito nas salas de aula já é visível há pelo menos quinze anos. Nas redes estaduais, a queda foi especialmente intensa: de 21,9 milhões de matrículas em 2007 para 14,2 milhões em 2023, uma redução de 35,3% em apenas dezesseis anos. Nas redes municipais, o recuo foi bem menor (4,9%) — em parte porque o processo de municipalização do ensino fundamental transferiu para os municípios escolas que antes eram geridas pelos estados, mascarando parte do impacto nos dados estaduais.
6,28
filhos por mulher na década de 1960 — taxa de fecundidade que originou a crise
1,55
filhos por mulher em 2022 — a taxa atual, muito abaixo do nível de reposição
-35,3%
queda nas matrículas das redes estaduais entre 2007 e 2023
-24,9%
queda adicional projetada nas redes estaduais entre 2022 e 2034
Os números da próxima década: de 14,7 para 11 milhões de alunos
O estudo projeta que as matrículas nas redes estaduais de ensino — que já recuaram de 19,9 milhões em 2010 para 14,7 milhões em 2022 — continuarão caindo nos próximos anos, chegando a 11,04 milhões de alunos em 2034. Isso representa uma redução adicional de mais de 3,6 milhões de estudantes em apenas doze anos.
O fenômeno não se restringe às redes estaduais. A população brasileira de 0 a 17 anos — que concentra o público da educação básica — deve cair de 50,9 milhões em 2024 para 36,2 milhões em 2050, uma redução de 28,9% em menos de três décadas, segundo as projeções populacionais do IBGE de 2024.
Essa queda atinge todas as faixas etárias que alimentam as diferentes etapas da educação básica:
- 0 a 3 anos (creche): queda projetada de 26,5% entre 2024 e 2050
- 4 a 5 anos (pré-escola): queda de 31,1%
- 6 a 10 anos (anos iniciais do EF): queda de 31,4%
- 11 a 14 anos (anos finais do EF): queda de 28,1%
- 15 a 17 anos (ensino médio): queda de 27,3%
“Com menos estudantes, é possível, mesmo sem considerar aumentos nos orçamentos das secretarias estaduais, promover melhorias na qualidade da educação por meio da valorização da carreira docente, uma vez que há menor pressão, por exemplo, para construção de novas escolas e contratação de grande quantidade de professores.”
— Estudo Profissão Docente / Economia Empresarial Consultores, 2025
Estado a estado: quem vai perder mais — e quem vai crescer
A queda de matrículas não ocorre de forma uniforme em todo o território nacional. Enquanto 25 das 27 unidades federativas projetam redução no número de alunos entre 2022 e 2034, dois estados — Goiás e Roraima — caminham na direção oposta, com crescimento projetado de matrículas. Nos demais, a intensidade da queda varia enormemente, criando cenários muito diferentes de planejamento educacional para cada rede.
🟢 Queda leve (até 15%) ou crescimento |
🟡 Queda moderada (15% a 30%) |
🔴 Queda severa (acima de 30%)
| Estado | Região | Variação matrículas 2022–2034 |
Variação pop. 0–17 anos 2024–2050 |
Cenário |
|---|---|---|---|---|
| 📈 ESTADOS COM CRESCIMENTO PROJETADO | ||||
| Goiás (GO) | Centro-Oeste | +4,4% ⬆️ | Queda leve (~5%) | 🟢 Expansão |
| Roraima (RR) | Norte | +1,6% ⬆️ | Queda leve (~8%) | 🟢 Expansão |
| 🟢 QUEDA LEVE — até 15% | ||||
| Ceará (CE) | Nordeste | -2,8% | ~-25% | 🟢 Favorável |
| Espírito Santo (ES) | Sudeste | -10,0% | ~-12% | 🟢 Favorável |
| Mato Grosso do Sul (MS) | Centro-Oeste | -12,5% | ~-15% | 🟢 Favorável |
| 🟡 QUEDA MODERADA — 15% a 30% | ||||
| Rio Grande do Norte (RN) | Nordeste | -19,8% | ~-33% | 🟡 Atenção |
| Rio de Janeiro (RJ) | Sudeste | -20,9% | ~-27% | 🟡 Atenção |
| Santa Catarina (SC) | Sul | -20,9% | ~-5% | 🟡 Atenção |
| Sergipe (SE) | Nordeste | -22,9% | ~-36% | 🟡 Atenção |
| Mato Grosso (MT) | Centro-Oeste | -24,1% | ~-1% | 🟡 Atenção |
| Minas Gerais (MG) | Sudeste | -24,5% | ~-20% | 🟡 Atenção |
| São Paulo (SP) | Sudeste | -26,3% | ~-20% | 🟡 Atenção |
| Acre (AC) | Norte | -26,5% | ~-38% | 🟡 Atenção |
| Amazonas (AM) | Norte | -26,6% | ~-27% | 🟡 Atenção |
| Rio Grande do Sul (RS) | Sul | -25,4% | ~-12% | 🟡 Atenção |
| Rondônia (RO) | Norte | -25,5% | ~-23% | 🟡 Atenção |
| Alagoas (AL) | Nordeste | -27,3% | ~-37% | 🟡 Atenção |
| Amapá (AP) | Norte | -27,3% | ~-41% | 🟡 Atenção |
| 🔴 QUEDA SEVERA — acima de 30% | ||||
| Maranhão (MA) | Nordeste | -30,7% | ~-41,5% ⬇️ | 🔴 Crítico |
| Bahia (BA) | Nordeste | -31,2% | ~-36% | 🔴 Crítico |
| Paraná (PR) | Sul | -31,3% | ~-18% | 🔴 Crítico |
| Pernambuco (PE) | Nordeste | -33,3% | ~-33% | 🔴 Crítico |
| Piauí (PI) | Nordeste | -34,4% | ~-35% | 🔴 Crítico |
| Distrito Federal (DF) | Centro-Oeste | -23,8% | ~-28% | 🟡 Atenção |
| Tocantins (TO) | Norte | -38,6% | ~-31% | 🔴 Crítico |
| Pará (PA) | Norte | -41,6% | ~-31% | 🔴 Crítico |
| Paraíba (PB) | Nordeste | -46,1% ⬇️ | ~-28% | 🔴 Mais crítico |
Fontes: Censo Escolar (2023) e projeções populacionais do IBGE (2024). Elaboração: Economia Empresarial Consultores Associados (2025). Os dados de variação da população de 0 a 17 anos são projeções para o período 2024–2050.
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Análise regional: onde a queda é mais severa
Nordeste: o maior desafio em números absolutos
O Nordeste é a região que concentra os casos mais extremos do país. A Paraíba registra a maior queda projetada de matrículas do Brasil: -46,1% até 2034. Isso significa que, em pouco mais de uma década, o estado perderá quase a metade de seus alunos nas redes estaduais. Pará (-41,6%), Piauí (-34,4%), Pernambuco (-33,3%) e Bahia (-31,2%) também estão entre os casos mais críticos.
A exceção notável da região é o Ceará, que projeta apenas -2,8% de queda nas matrículas — a menor redução entre os estados que ainda perdem alunos. Isso reflete, em parte, o processo de municipalização mais acelerado que o estado ainda está vivendo, transferindo alunos das redes estaduais para as municipais sem que haja perda real de atendimento.
Norte: o paradoxo de Roraima
A região Norte apresenta o maior contraste interno do país. Enquanto o Pará projeta a segunda maior queda de matrículas do Brasil (-41,6%), Roraima caminha na direção oposta, com crescimento de +1,6%. Tocantins (-38,6%) e Acre (-26,5%) também figuram entre os estados com quedas mais expressivas. O crescimento de Roraima é explicado pela combinação de dinâmica migratória — o estado recebe fluxos populacionais que sustentam a demanda escolar — e pela relativa juventude de sua estrutura etária.
Sul e Sudeste: queda moderada, mas impacto enorme em escala
No Sul, a queda média das matrículas estaduais fica em torno de 26%, puxada principalmente pelo Paraná (-31,3%), enquanto Santa Catarina (-20,9%) e Rio Grande do Sul (-25,4%) ficam em patamares um pouco menores. O impacto em escala absoluta, porém, é relevante: São Paulo — que tem a maior rede estadual do Brasil — projeta queda de -26,3%, o que em números absolutos representa centenas de milhares de alunos a menos.
Centro-Oeste: o único estado que cresce
Goiás é a grande exceção do Centro-Oeste e uma das mais curiosas do país: projeção de crescimento de +4,4% nas matrículas estaduais até 2034, ao mesmo tempo em que é o estado com a maior proporção de professores aptos à aposentadoria (73,2%). Esse cruzamento cria uma equação complexa: mais alunos e menos professores experientes ao mesmo tempo. Mato Grosso (-8,5%) e Mato Grosso do Sul (-12,5%) figuram entre os estados com as quedas mais suaves do país.
Por que as matrículas caem? A transição demográfica explicada
A raiz do fenômeno é a queda estrutural na taxa de fecundidade brasileira. O Brasil passou de uma média de 6,28 filhos por mulher nos anos 1960 para apenas 1,55 em 2022 — uma queda de quase 75% em seis décadas. Esse processo, chamado de transição demográfica, é irreversível no curto e médio prazo e seus efeitos já estão plenamente em curso nas escolas.
Mas a transição demográfica não é o único fator. O processo de municipalização do ensino fundamental também explica parte da queda nas redes estaduais: à medida que escolas que antes eram gerenciadas pelos governos estaduais passam a ser geridas por prefeituras, os estados registram reduções de matrícula que não refletem uma diminuição real no atendimento público, mas sim uma redistribuição de responsabilidades entre os entes federativos.
Para o futuro, o IBGE projeta que a população de 0 a 17 anos cairá de 50,9 milhões em 2024 para 36,2 milhões em 2050 — uma redução de 28,9% em 26 anos. Isso significa que a pressão demográfica sobre as redes escolares não vai diminuir: ela vai se intensificar ao longo de toda a próxima geração.
A oportunidade histórica: o que a queda de alunos permite fazer
Se analisada apenas como perda, a queda de matrículas parece um problema sem solução. Mas o estudo do Movimento Profissão Docente propõe uma leitura diferente: com menos alunos, é possível fazer mais por cada um deles — sem necessariamente aumentar o orçamento das secretarias estaduais de educação.
O raciocínio é simples: se o número de alunos cai e o orçamento se mantém constante, o investimento por estudante aumenta automaticamente. Isso cria espaço para ampliar a educação em tempo integral, melhorar a infraestrutura das escolas, valorizar a carreira docente e selecionar professores com mais critério — tudo sem exigir novos recursos. E caso haja crescimento real do orçamento, o ganho por aluno é ainda maior.
🎯 O que a queda de matrículas permite às redes estaduais:
- Expandir a educação em tempo integral sem precisar construir novas escolas ou contratar grandes lotes de professores
- Reduzir a relação alunos por professor, que hoje é em média 20,5 nas redes estaduais, permitindo mais atenção individual
- Realizar concursos públicos menores e mais frequentes, com processos seletivos mais rigorosos, incluindo provas práticas
- Planejar aposentadorias e reposições de forma gradual e sustentável, sem a pressão de grandes contratações emergenciais
- Ampliar os salários dos professores ativos à medida que o custo com inativos se estabiliza ou cai em estados com reforma previdenciária
A relação aluno-professor: quem está mais sobrecarregado?
Em 2023, a média nacional de matrículas por professor nas redes estaduais era de 20,5 alunos por docente. Mas essa média esconde uma enorme desigualdade entre os estados. Nos extremos opostos, o Pará registra quase 39 alunos por professor — quase o dobro da média nacional —, enquanto o Piauí tem apenas 15 alunos por docente.
Essa desigualdade tem implicações diretas para a queda de matrículas: nos estados com alta relação aluno-professor, a redução no número de estudantes alivia a sobrecarga dos docentes. Nos estados que já operam com poucos alunos por professor, o impacto fiscal de manter o mesmo quadro docente diante de uma queda de matrículas é mais imediato e exige replanejamento mais rápido da força de trabalho.
⚠️ Atenção gestores: Estados que não realizarem o planejamento da força de trabalho docente em resposta à queda de matrículas correm o risco de manter folhas de pagamento insustentáveis — com professores efetivos sem turmas suficientes — ao mesmo tempo em que ficam sem recursos para melhorar salários e condições de trabalho.
Educação em tempo integral: a principal oportunidade aberta pela queda
Uma das apostas mais promissoras abertas pela queda de matrículas é a expansão da educação em tempo integral. Com menos alunos ocupando as estruturas físicas das escolas e com professores menos sobrecarregados, torna-se viável transformar escolas de turno parcial em escolas de tempo integral sem a necessidade proporcional de novos investimentos em infraestrutura.
A evidência sobre o impacto positivo da educação integral é robusta. Estudos citados pelo estudo do Movimento Profissão Docente indicam que a ampliação do tempo escolar tem efeito significativo no aumento da aprendizagem dos estudantes — especialmente nas redes públicas, onde os alunos mais vulneráveis tendem a se beneficiar mais do tempo adicional na escola.
O governo federal já sinalizou a educação em tempo integral como prioridade de política pública, e a combinação entre essa agenda e a janela demográfica que se abre nos próximos dez anos cria condições únicas para um salto qualitativo na educação básica pública brasileira — desde que os estados aproveitem o momento com planejamento e responsabilidade fiscal.
📌 O que fica de lição
A queda de 24,9% nas matrículas das redes estaduais projetada para os próximos dez anos não é apenas uma estatística demográfica. É um sinal de transformação profunda na estrutura da educação pública brasileira — e uma janela de oportunidade que se abre uma única vez por geração. Os estados que enxergarem nessa queda não um problema, mas uma alavanca para reorganizar sua oferta educacional com foco em qualidade, tempo integral e valorização docente serão os que darão o salto. Os que reagirem apenas reativamente, sem planejamento, correm o risco de chegar a 2034 com escolas vazias, professores aposentados sem reposição qualificada e orçamentos comprometidos. O futuro da educação pública brasileira será decidido nas escolhas feitas agora.
📋 Sobre o estudo
- Título: Transição Demográfica e Situação Fiscal das 27 Unidades Federativas: Oportunidades para melhorar a qualidade da educação brasileira
- Realização: Movimento Profissão Docente
- Pesquisadores: Bernardo Schettini, Herton Araujo, Paulo Tafner e Rogério Costanzi
- Fontes de dados: Censo Escolar (2007–2023), projeções populacionais do IBGE (2024), Censo Demográfico IBGE 2022
- Publicação: Agosto de 2025



