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Ensino Superior: Mega mantenedoras concentram 47,1% das matrículas de Graduação

Em 2014, as maiores mantenedoras do ensino superior privado brasileiro — as chamadas de mega porte, com mais de 50 mil matrículas cada — concentravam 27,7% de todas as matrículas do país. Em 2024, esse número saltou para 47,1%. Em uma década, quase a metade dos estudantes do ensino superior brasileiro passou a frequentar instituições controladas por um grupo de mantenedoras que representa apenas 1,4% do total de instituições existentes.

1,4% das mantenedoras de ensino superior controlam quase metade dos alunos do Brasil, revela Mapa do Instituto Semesp 2026

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Os dados constam da 16ª edição do Mapa do Ensino Superior no Brasil 2026, publicado pelo Instituto Semesp com base nos Censos da Educação Superior do Inep, e revelam o grau de oligopolização que o setor alcançou — e seus efeitos sobre estudantes, professores e a diversidade educacional do país.

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Os números da concentração: o que dizem os dados do Mapa 2026

O Mapa do Ensino Superior classifica as mantenedoras em cinco categorias por porte, de acordo com o número de matrículas: micro (até 500), pequena (501 a 2 mil), média (2.001 a 10 mil), grande (10.001 a 50 mil) e mega (acima de 50 mil). A disparidade entre a proporção de instituições e a fatia de matrículas que cada grupo controla é o indicador mais claro do nível de concentração:

Porte da mantenedora Matrículas % das instituições % das matrículas (2024) % das matrículas (2014)
Micro Até 500 43,5% 1,2% 1,5%
Pequena 501–2.000 26,2% 4,8% 7,8%
Média 2.001–10.000 21,3% 15,2% 23,5%
Grande 10.001–50.000 8,8% 31,7% 40,0%
Mega Acima de 50.000 1,4% 47,1% 27,7%
Fonte: Mapa do Ensino Superior no Brasil 2026 — Instituto Semesp / Base: INEP. Total inclui rede pública e privada.

A concentração se aprofunda quando o foco é a rede privada. Na comparação restrita ao setor privado, as mega mantenedoras representam apenas 1,2% das instituições e detêm 55,1% das matrículas privadas. Somando grande e mega porte — ou seja, os 10,2% de instituições com mais de 10 mil alunos —, esse grupo controla 78,8% de todas as matrículas do país (31,7% grande e 47,1% mega). No outro extremo, as mantenedoras micro e pequenas somam 69,7% de todas as instituições e respondem por apenas 6% das matrículas.

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📊 A DIMENSÃO DO SALTO EM DEZ ANOS

Em 2014, as mega mantenedoras concentravam 27,7% das matrículas. Em 2024, esse número está em 47,1%: uma alta de 19,4 pontos percentuais em uma década. Ao mesmo tempo, as mantenedoras de médio porte foram as que mais perderam participação: de 23,5% para 15,2%. As pequenas caíram de 7,8% para 4,8%. O movimento é inequívoco: os grupos maiores cresceram absorvendo a base de alunos que antes estava distribuída em um conjunto mais diversificado de instituições.

Como chegamos até aqui: fusões, aquisições e o papel da EaD

A concentração atual do ensino superior privado é resultado de um processo que começou com a abertura de capital dos grupos educacionais na Bolsa de Valores brasileira (B3), a partir de 2007. A entrada no mercado de capitais transformou a lógica de crescimento dessas empresas: de instituições educacionais que expandiam organicamente, passaram a ser companhias com obrigação de retorno aos acionistas, o que colocou o aumento do número de alunos — e da receita — como prioridade central.

O resultado foi uma rodada acelerada de fusões e aquisições. A Kroton — que se tornaria a Cogna Educação — adquiriu a UNOPAR (líder em EaD), a IUNI Educacional e, em 2014, concluiu a fusão com a Anhanguera, tornando-se a maior empresa educacional do mundo por valor de mercado na época. A Estácio criou a holding Yduqs e adquiriu a Adtalem Brasil, incorporando o Ibmec. O grupo Ânima, com foco em cursos premium, e o Ser Educacional, especializado nas regiões Norte e Nordeste, também expandiram significativamente via aquisições. Entre 2018 e 2021, os grupos Ânima e Yduqs ampliaram seus alunados em 121% e 118%, respectivamente, segundo dados consolidados da Hoper Consultoria.

O segundo motor da concentração foi a expansão da EaD. As mega mantenedoras possuem escala, infraestrutura tecnológica e capacidade de investimento que as instituições menores não têm para operar na modalidade a distância com custo competitivo. A EaD, que em 2024 ultrapassou 50% das matrículas totais, está concentrada justamente nas IES de maior porte. O Mapa 2026 confirma: a crescente concentração de matrículas em poucas instituições espelha diretamente a expansão da modalidade EaD, concentrada nas IES privadas de maior porte.

🏢 OS PRINCIPAIS GRUPOS QUE CONTROLAM O SETOR

Os maiores grupos privados de ensino superior no Brasil listados na B3 são: Cogna Educação (Kroton/Anhanguera/Pitágoras/Unopar), Yduqs (Estácio/Ibmec), Ânima Educação (Una/Unibrasil/HSM), Ser Educacional e Afya (foco em medicina). Juntos, esses grupos respondem por parcela expressiva das matrículas mega. Todos têm capital aberto em bolsa, o que significa que suas decisões pedagógicas, de contratação e de expansão são orientadas também — e em muitos casos primariamente — pelo retorno financeiro aos acionistas.

O impacto sobre estudantes: preço, qualidade e diversidade

A concentração de mercado em qualquer setor tende a reduzir a concorrência e, com ela, os incentivos para qualidade e precificação competitiva. No ensino superior, esse efeito tem contornos específicos. Por um lado, os grandes grupos usam escala para oferecer mensalidades mais baixas na EaD — o que democratiza o acesso, especialmente para estudantes de baixa renda. Por outro, a lógica de maximização de matrículas com custo mínimo pressiona para baixo a relação professor-aluno, a qualidade do suporte pedagógico e os investimentos em infraestrutura.

O dado de evasão é um indicador desse processo: a taxa de abandono na EaD privada chegou a 41,9% em 2024 — o maior índice da série histórica. Em termos práticos, quase metade dos estudantes que ingressam nos cursos EaD das instituições privadas não os conclui. A concentração de matrículas nas mega mantenedoras, que operam majoritariamente via EaD, associa-se diretamente a esse número. O estudante que não consegue ser retido não é prioritariamente um problema para o balanço financeiro do grupo se a taxa de captação de novos ingressantes compensar as perdas — o que cria um incentivo perverso contra a permanência.

Do ponto de vista da diversidade institucional, a concentração também representa perda. Instituições menores, regionais ou especializadas em determinadas áreas do conhecimento — que oferecem currículos adaptados às realidades locais, maior proximidade com os estudantes e vínculos com comunidades específicas — perdem espaço para a padronização do ensino superior em escala nacional. O Mapa confirma essa tendência: as mantenedoras de médio porte passaram de 23,5% para 15,2% das matrículas em dez anos. Esse é o estrato onde se encontram a maior parte das IES regionais e comunitárias.

⚠️ FIES, SUBSÍDIO PÚBLICO E CRESCIMENTO PRIVADO

Uma parte relevante do crescimento dos grandes grupos na primeira metade dos anos 2010 foi financiada por recursos públicos via Fies (Fundo de Financiamento Estudantil). Para alguns desses grupos, mais da metade da receita provinha do programa em seus anos de pico. Quando o MEC endureceu as regras de acesso em 2014 e o número de contratos Fies desabou — de 731 mil em 2014 para 110 mil em 2022 —, vários grupos sentiram o impacto financeiro diretamente. O argumento de que a expansão privada ocorreu sem apoio público não encontra respaldo nos dados históricos.

O impacto sobre professores: precarização como modelo de negócio

A outra face da concentração é o que acontece com os trabalhadores da educação dentro desses grupos. A lógica de maximização de escala com custo mínimo tem impacto direto sobre a remuneração e as condições de trabalho dos professores. A EaD, em particular, permite aos grupos reduzir o número de docentes contratados — um professor gravando videoaulas pode atender milhares de alunos simultaneamente, sem os custos trabalhistas proporcionais de um modelo presencial.

Pesquisa publicada na Revista e-Curriculum em 2025 descreve a “eadização” do ensino superior privado como mecanismo de intensificação da exploração docente: transformações em contratação, remuneração, jornada e controle pedagógico que caracterizam o modelo hegemônico aplicado no setor privado, marcado por lógicas de acumulação que comprometem a qualidade do ensino e reconfiguram o trabalho docente. A consolidação dos grupos mega intensifica esse processo ao padronizar conteúdos em escala nacional, reduzindo a autonomia pedagógica dos professores e transformando parte do corpo docente em operadores de plataformas de conteúdo gravado.

Antes da publicação do Marco Regulatório da EaD (Decreto nº 12.456/2025), a figura do “tutor” — profissional sem os direitos trabalhistas plenos dos docentes — era amplamente utilizada pelos grupos como forma de reduzir custos de pessoal. O decreto reconheceu os tutores como docentes, o que representa um avanço. Mas a remuneração dos professores da rede privada segue estruturalmente abaixo da rede pública: dados do INEP indicam que, em 2018, a média salarial de docentes da rede privada era de R$ 3.399 brutos por 40 horas semanais, contra R$ 4.585 na média das redes públicas — e o quadro não melhorou substancialmente desde então.

Concentração não é sinônimo de qualidade: o que os indicadores mostram

O argumento frequentemente usado pelos grandes grupos para justificar a concentração é o da eficiência: escala permitiria investimento em tecnologia, materiais e infraestrutura que instituições menores não conseguiriam financiar. Mas os dados não validam a equivalência entre porte e qualidade. O Mapa do Ensino Superior 2026 aponta que a área de maior crescimento na EaD — os cursos de TIC, com 13,6% de avanço em 2024 — está em grande parte nos grupos de maior porte. Ao mesmo tempo, a taxa de evasão dessas mesmas instituições permanece entre as mais altas do sistema.

Na análise do mercado financeiro, o cenário atual também revela pressões sobre os próprios grupos. Companhias com maior dependência do ensino online passaram a enfrentar desafios mais intensos, incluindo queda de matrículas e pressão sobre preços, especialmente após o Marco Regulatório da EaD. A Yduqs, por exemplo, tem o ensino digital em retração, com queda estimada de 25% nas matrículas nesse segmento. O modelo construído sobre escala máxima em EaD com custo mínimo enfrenta, pela primeira vez, limites regulatórios e de demanda simultaneamente.

O que o Mapa 2026 sinaliza sobre o caminho à frente

O próprio Instituto Semesp, que publica o Mapa e representa mantenedoras privadas, reconhece no relatório que a concentração crescente de matrículas em poucas instituições “sinaliza um desafio para a diversidade e concorrência do setor”. O diagnóstico é relevante: quando a entidade do setor privado identifica a concentração como problema, o dado ultrapassa o debate ideológico e entra no campo dos riscos sistêmicos.

Para estudantes, o cenário coloca questões concretas: se uma mega mantenedora enfrenta dificuldades financeiras — como ocorreu com a Cogna, cujas ações chegaram a cair 82% em determinado período —, o impacto sobre centenas de milhares de alunos pode ser imediato. Não existe, no Brasil, um mecanismo consolidado de proteção aos estudantes em caso de falência ou encerramento de operações de uma IES de grande porte. Para professores, a consolidação do setor tende a reduzir ainda mais o poder de barganha individual e sindical, em um setor já marcado por remunerações abaixo da média das redes públicas.

A questão regulatória é central. O Marco Regulatório da EaD foi o primeiro instrumento em anos a impor limites concretos à expansão desordenada dos grupos privados. Mas ele trata da modalidade, não da estrutura de mercado. A discussão sobre mecanismos antitruste específicos para o setor educacional — reconhecendo que educação tem externalidades sociais que superam a lógica de um mercado comum de serviços — ainda não entrou de forma substantiva na agenda pública brasileira.

Concentração de Mantenedoras — Ensino Superior Brasileiro — Mapa 2026 (Semesp/INEP)
Mega mantenedoras: % de instituições 1,4% do total (acima de 50 mil matrículas cada)
Mega mantenedoras: % de matrículas (2024) 47,1% de todas as matrículas do país
Mega mantenedoras: % de matrículas (2014) 27,7% — alta de 19,4 p.p. em dez anos
Grande + Mega (10,2% das inst.): % de matrículas 78,8% de todas as matrículas do Brasil
Na rede privada: mega mantenedoras 1,2% das inst. detêm 55,1% das matrículas privadas
Micro + Pequenas (69,7% das inst.): % de matrículas Apenas 6,0% das matrículas
Taxa de evasão EaD privada (2024) 41,9% — maior da série histórica
Principais grupos listados em bolsa Cogna (COGN3), Yduqs (YDUQ3), Ânima (ANIM3), Ser Educacional (SEER3), Afya (AFYA)
Diagnóstico do próprio Semesp “Desafio para a diversidade e concorrência do setor”

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