A remuneração de entrada é um dos fatores mais importantes para atrair bons profissionais para a docência — e para mantê-los na rede nos primeiros anos de carreira. Um estudo do Movimento Profissão Docente, publicado em janeiro de 2026, mapeou o salário inicial dos professores nas 26 capitais brasileiras e revelou quais redes municipais se destacam positivamente nesse ponto — e quais ainda ficam aquém do esperado.
Os dados consideram o vencimento base de ingresso de um professor com licenciatura plena em jornada de 40 horas semanais, sem gratificações. Esse é o valor que efetivamente entra no cálculo da aposentadoria — o que o torna o indicador mais relevante para quem está avaliando onde prestar concurso.
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Por que o salário inicial é tão importante
Evidências internacionais indicam que a decisão de ingressar na docência está mais fortemente associada ao valor do salário inicial do que à progressão salarial ao longo da carreira. Um estudo da consultoria McKinsey de 2007, citado no relatório do Movimento Profissão Docente, mostra que sistemas educacionais bem-sucedidos concentram a remuneração nos primeiros anos justamente porque o salário inicial é o principal fator de atração de profissionais qualificados para o magistério.
Além disso, após a Reforma da Previdência de 2019, o vencimento base ganhou ainda mais relevância: gratificações e adicionais deixaram de ser incorporados à aposentadoria. Isso significa que o professor que ingressa em uma rede com vencimento base alto está protegendo não apenas seu salário presente, mas também seus proventos futuros.
Em 2025, o Piso Nacional do Magistério está fixado em R$ 4.867,77 para jornada de 40 horas semanais. A remuneração inicial média das capitais, sem gratificações, chegou a R$ 5.576 — 15% acima do piso mínimo legal.
As capitais que mais valorizam o professor na entrada
Cinco capitais se destacam por oferecer vencimentos base de ingresso significativamente acima da média nacional, combinando remuneração competitiva com estruturas de carreira que fazem sentido no longo prazo.
1º lugar
Campo Grande (MS)
R$ 8.851
182% do Piso Nacional
5,83 salários mínimos
2º lugar
Cuiabá (MT)
R$ 7.982
164% do Piso Nacional
Única capital com subsídio
3º lugar
João Pessoa (PB)
R$ 7.692
158% do Piso Nacional
Chega a R$ 10.000 com gratif.
4º lugar
São Luís (MA)
R$ 6.648
137% do Piso Nacional
Destaque do Nordeste
5º lugar
Belo Horizonte (MG)
R$ 6.356
131% do Piso Nacional
Maior capital do Sudeste
O que explica cada destaque
Campo Grande (MS) — R$ 8.851
Campo Grande lidera o ranking nacional com o maior vencimento base de ingresso entre todas as capitais brasileiras. O valor equivale a 182% do Piso Nacional e a quase 5,83 salários mínimos. O diferencial da capital sul-mato-grossense está na estrutura do plano de carreira, que concentra o investimento no vencimento base — sem depender de gratificações para atingir esse patamar. Isso significa que o professor que ingressa na rede leva esse valor integralmente para a aposentadoria, sem surpresas futuras.
Cuiabá (MT) — R$ 8.851 → R$ 7.982
Cuiabá combina o segundo maior vencimento base do país (R$ 7.982) com uma característica única entre as capitais: é a única que adota o regime de subsídio. Nesse modelo, a remuneração é paga em parcela única, sem gratificações acrescidas, e pode ser integralmente levada à aposentadoria. Para o professor, isso representa segurança e transparência que nenhuma outra capital municipal oferece.
Com subsídio, o valor que aparece no contracheque é exatamente o que será base de cálculo da aposentadoria — sem a distorção que afeta a maioria das redes, onde parte da remuneração atual não se converte em provento futuro.
João Pessoa (PB) — R$ 7.692
João Pessoa ocupa o terceiro lugar no vencimento base, com R$ 7.692 — um resultado notável para uma capital do Nordeste, região que em geral concentra os menores salários iniciais do país. Com a inclusão de gratificações extensíveis a todos os professores, a remuneração de entrada chega a R$ 10.000, o maior valor com gratificações entre todas as capitais brasileiras.
O ponto de atenção é que a amplitude de crescimento ao longo da carreira é menor (23% de amplitude total), o que indica que boa parte da valorização está concentrada na entrada — estratégia alinhada ao que as evidências internacionais recomendam para atração de profissionais.
São Luís (MA) — R$ 6.648
São Luís se destaca como a capital nordestina com maior vencimento base, superando Fortaleza, Recife e Salvador com folga. O valor de R$ 6.648 representa 137% do Piso Nacional — um desempenho relevante considerando o contexto regional. A rede maranhense não paga gratificações extensíveis a todos os professores, o que significa que o valor declarado é o valor real, sem componentes que desaparecem na aposentadoria.
Belo Horizonte (MG) — R$ 6.356
Belo Horizonte lidera entre as capitais do Sudeste no vencimento base, com R$ 6.356 — acima de Rio de Janeiro (R$ 6.335), São Paulo (R$ 5.906) e Vitória (R$ 5.001). A rede mineira também apresenta uma das maiores amplitudes remuneratórias totais entre as capitais (118%), indicando que a valorização não se limita à entrada: o professor pode praticamente dobrar o salário ao longo da carreira, que tem amplitude temporal de 33 anos.
Ranking completo das 26 capitais por salário inicial
A tabela abaixo apresenta todas as capitais ordenadas por vencimento base, com o valor sem e com gratificações e a relação com o Piso Nacional. Os dados são do relatório Planos de Carreira e Remuneração do Magistério — Redes Públicas das Capitais 2025, com referência a novembro de 2025.
| # | Capital / UF | Sem gratificações | Com gratificações | % do Piso Nacional |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Campo Grande (MS) | R$ 8.851 | R$ 8.851 | 182% |
| 2 | Cuiabá (MT) | R$ 7.982 | R$ 9.179 | 164% |
| 3 | João Pessoa (PB) | R$ 7.692 | R$ 10.000 | 158% |
| 4 | São Luís (MA) | R$ 6.648 | R$ 6.648 | 137% |
| 5 | Belo Horizonte (MG) | R$ 6.356 | R$ 6.356 | 131% |
| 6 | Rio de Janeiro (RJ) | R$ 6.335 | R$ 6.335 | 130% |
| 7 | Fortaleza (CE) | R$ 5.912 | R$ 6.769 | 121% |
| 8 | São Paulo (SP) | R$ 5.906 | R$ 7.377 | 121% |
| 9 | Recife (PE) | R$ 5.851 | R$ 5.851 | 120% |
| 10 | Rio Branco (AC) | R$ 5.525 | R$ 5.525 | 113% |
| 11 | Curitiba (PR) | R$ 5.474 | R$ 5.474 | 112% |
| 12 | Porto Alegre (RS) | R$ 5.419 | R$ 6.489 | 111% |
| 13 | Manaus (AM) | R$ 5.356 | R$ 6.159 | 110% |
| 14 | Florianópolis (SC) | R$ 5.127 | R$ 5.639 | 105% |
| 15 | Teresina (PI) | R$ 5.252 | R$ 6.365 | 108% |
| 16 | Goiânia (GO) | R$ 5.266 | R$ 6.337 | 108% |
| 17 | Vitória (ES) | R$ 5.001 | R$ 5.001 | 103% |
| 18 | Maceió (AL) | R$ 5.006 | R$ 5.006 | 103% |
| 19 | Boa Vista (RR) | R$ 4.934 | R$ 5.934 | 101% |
| 20 | Salvador (BA) | R$ 4.868 | R$ 5.841 | 100% |
| 21 | Natal (RN) | R$ 4.868 | R$ 4.868 | 100% |
| 22 | Porto Velho (RO) | R$ 4.868 | R$ 4.868 | 100% |
| 23 | Palmas (TO) | R$ 4.868 | R$ 5.531 | 100% |
| 24 | Macapá (AP) ⚠ | R$ 4.442 | R$ 6.464 | 91% |
| 25 | Belém (PA) ⚠ | R$ 3.986 | R$ 8.769 | 82% |
| 26 | Aracaju (SE) ⚠ | R$ 3.195 | R$ 6.372 | 66% |
⚠ Capitais cujo vencimento base está abaixo do Piso Nacional do Magistério (R$ 4.867,77 em 2025) para jornada de 40 horas. Fonte: Movimento Profissão Docente — Planos de Carreira e Remuneração do Magistério: Redes Públicas das Capitais 2025, jan./2026.
O caso de Belém: o perigo de confundir remuneração total com vencimento base
Belém ilustra de forma clara o problema da dependência de gratificações. Com vencimento base de R$ 3.986 — abaixo do Piso Nacional —, a capital paraense aparece na 25ª posição no ranking de salário inicial sem gratificações. Com gratificações, no entanto, o valor sobe para R$ 8.769, saltando para o terceiro lugar no ranking com gratificações.
A diferença de quase R$ 4.800 entre os dois valores revela uma estrutura remuneratória altamente dependente de parcelas que não entram na aposentadoria desde 2019. O professor que ingressa em Belém recebe bem na ativa — mas vai se aposentar com base em pouco mais de R$ 3.986, não nos R$ 8.769 do contracheque mensal.
Aracaju apresenta situação semelhante: vencimento base de R$ 3.195 (66% do Piso Nacional), mas remuneração com gratificações de R$ 6.372. A distância entre os dois valores é a maior entre todas as capitais em termos percentuais.
Campo Grande e Cuiabá: por que o Centro-Oeste lidera
Não é coincidência que as duas primeiras posições do ranking sejam ocupadas por capitais do Centro-Oeste. A região tem historicamente investido na valorização do vencimento base do magistério — e Cuiabá vai além ao adotar o subsídio, tornando a remuneração ainda mais transparente e previdenciariamente vantajosa.
Campo Grande, em particular, combina entrada alta com progressão real: além de R$ 8.851 na entrada, o professor acumula 52% de crescimento nos primeiros 15 anos de carreira e chega a R$ 16.307 ao final do plano — amplitude de 84% em 21 anos. É uma das carreiras mais completas entre todas as capitais analisadas.
📋 Sobre os dados
Fonte: Movimento Profissão Docente — Planos de Carreira e Remuneração do Magistério: Redes Públicas das Capitais 2025, publicado em janeiro de 2026. Valores ajustados para jornada de 40 horas semanais (hora-relógio), professor com licenciatura plena na primeira referência da tabela de vencimentos. Dados validados com 21 das 26 secretarias municipais de educação.
⚠️ Gratificações e adicionais não são incorporados à aposentadoria após a Reforma da Previdência de 2019 (art. 39, § 9º, CF). O Piso Nacional do Magistério em 2025 é de R$ 4.867,77.
Conclusão
Campo Grande, Cuiabá, João Pessoa, São Luís e Belo Horizonte são as capitais que mais valorizam o professor no início da carreira em 2025 — com vencimentos base significativamente acima da média nacional e, em alguns casos, estruturas remuneratórias que preservam esse valor na aposentadoria.
O dado mais relevante para o professor que está avaliando onde prestar concurso não é o salário total com gratificações, mas o vencimento base — o valor que permanece na ativa, que serve de base para a progressão na carreira e que, sobretudo, chega integralmente à aposentadoria. Nesse critério, o Centro-Oeste lidera com folga.



