
A Fundação Carlos Chagas (FCC), em parceria com o Lemann Center da Universidade Stanford e a organização D³e, mostrou que nove em cada dez professores que trabalham em duas ou mais escolas prefeririam concentrar sua jornada em apenas uma unidade. O dado integra o relatório Trabalho docente em uma única escola, lançado em 29 de setembro, e recoloca no centro do debate uma rotina comum nas redes brasileiras: a de profissionais que dividem a semana entre endereços, turnos e equipes diferentes.
Para professores da Educação Básica, a discussão vai além do deslocamento. Uma jornada fragmentada reduz o tempo disponível para planejar aulas, acompanhar estudantes, participar de reuniões e construir vínculos com a comunidade escolar. O estudo não atribui essa situação a uma escolha individual isolada: ele relaciona a circulação entre escolas à remuneração, aos contratos, à composição das cargas horárias e às regras de organização das redes. UFFS encerra nesta sexta inscrições para especia...
O relatório combina revisão de pesquisas, dados do Censo da Educação Básica, estudos de caso em cinco redes estaduais e uma pesquisa nacional com 713 docentes das redes pública e privada. A proposta é oferecer subsídios para o Plano Nacional de Educação de 2026 a 2036, especialmente para a meta que busca ampliar a atuação do professor em uma única escola.
O que os dados mostram
O levantamento aponta que trabalhar em mais de uma unidade não é uma realidade marginal. Na Educação Básica brasileira, cerca de um quinto dos docentes atua em duas ou mais escolas. A proporção cresce nas etapas em que a docência costuma ser organizada por componente curricular e por aulas distribuídas ao longo da semana.
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Preferência entre docentes que atuam em várias escolas | 9 em cada 10 prefeririam trabalhar em uma só |
| Docentes da Educação Básica em duas ou mais escolas | Cerca de 20% |
| Docentes dos anos finais do Ensino Fundamental em várias escolas | 34% |
| Docentes do Ensino Médio em várias escolas | 36% |
O recorte do Ensino Médio ajuda a entender o problema. Professores de disciplinas específicas precisam, muitas vezes, completar sua carga em turmas, turnos ou escolas diferentes. Quando uma disciplina ocupa poucas aulas semanais em cada classe, a soma necessária para formar a jornada pode levar o profissional a percorrer mais de uma unidade — e, em alguns casos, mais de uma rede de ensino.
Por que a jornada fica dividida
Entre os fatores identificados pela pesquisa estão os salários insuficientes para uma jornada em apenas uma instituição, os vínculos temporários, as cargas horárias parciais e a forma como as aulas são distribuídas no currículo. Quase metade dos professores que trabalham em múltiplas escolas atua em duas redes diferentes, segundo o levantamento. Isso pode significar conciliar regras, calendários, plataformas e expectativas administrativas que não são iguais. 6 especializações EAD gratuitas oferecem 890 vag...
O dado também pede cautela com explicações simplistas. Há docentes que escolhem complementar a jornada ou manter vínculos distintos, mas a pesquisa mostra que a preferência majoritária é pela concentração do trabalho. Em outras palavras, a pergunta não é apenas se o professor quer trocar de escola: é se a rede oferece uma combinação de remuneração, jornada e lotação que torne possível permanecer.
A situação tende a pesar mais sobre quem está no início da carreira ou depende de contratos com duração limitada. Nos cinco sistemas estaduais estudados, a presença de temporários foi superior a 30%, chegando a ultrapassar metade do quadro em três redes. A instabilidade do vínculo pode dificultar a montagem de uma jornada contínua e o pertencimento a uma equipe pedagógica ao longo do ano letivo.
O que muda com uma única escola
Concentrar a jornada não significa trabalhar menos nem resolve, por si só, todos os desafios da escola. A diferença está em organizar o tempo de trabalho de modo que as aulas, o planejamento, a correção, a formação e a participação coletiva possam caber na mesma rotina. Para isso, a pesquisa destaca a importância de jornadas compatíveis, com tempo remunerado fora da sala de aula.
Esse tipo de arranjo pode favorecer a continuidade do acompanhamento dos estudantes e a articulação entre os profissionais que atendem as mesmas turmas. Também reduz o custo pessoal de deslocamentos frequentes, sobretudo em cidades grandes e regiões metropolitanas. A medida, porém, depende de decisões de política de pessoal, de distribuição de aulas e de financiamento; não cabe ao professor resolver sozinho uma estrutura fragmentada.
9 em 10
preferem uma única escola
20%
atuam em duas ou mais escolas
36%
no Ensino Médio têm jornada dividida
Caminhos apontados pelo estudo
As experiências analisadas indicam que não existe solução única para todas as redes. A organização por área, a dimensão territorial e o perfil dos vínculos alteram o tamanho do desafio. Ainda assim, o relatório identifica que políticas de ampliação da jornada integral podem ajudar quando são acompanhadas de lotação em uma mesma escola, remuneração adequada e composição de carga horária que reserve tempo para as demais tarefas docentes.
Em uma das redes estaduais observadas, a expansão de escolas de tempo integral, com professores alocados por 40 horas em uma única unidade, foi acompanhada por queda de 15 pontos percentuais na proporção de profissionais em múltiplas escolas entre 2018 e 2023. O resultado é apresentado como experiência a ser analisada no contexto local, e não como fórmula automática para qualquer município ou estado.
Para o debate público, o principal recado é que valorizar a docência também envolve assegurar condições para que o professor esteja presente na vida escolar, e não apenas de passagem entre uma aula e outra. O estudo reforça que a jornada concentrada precisa ser pensada junto com carreira, concursos, vínculos estáveis, planejamento e a própria organização curricular.
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Os resultados, a metodologia e as referências da pesquisa podem ser consultados na página oficial da FCC sobre o relatório.
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