Rônei Alves da Silva, catador de material reciclável e um dos líderes da categoria no Distrito Federal, era analfabeto até os 28 anos. Passou a se dedicar aos estudos ainda trabalhando na coleta de recicláveis e, mais de duas décadas depois, recebeu a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/DF), concretizando o sonho de se tornar advogado.
Catador de recicláveis e líder da categoria no DF, Rônei enfrentou reprovação na OAB por 0,25 ponto antes de finalmente se tornar advogado.
Enquanto trabalhava como catador na cooperativa 100 Dimensão, no Distrito Federal, Rônei cursou o supletivo primeiro para o ensino fundamental e depois para o ensino médio. Na juventude, ele havia chegado apenas até a 5ª série, abandonando os estudos após repetir de ano cinco vezes. “Eu falei: estudar não é pra mim. Eu sou burro”, contou à época, sobre a fase em que desistiu.
Liderança nas cooperativas de reciclagem
Anos depois, já alfabetizado, Rônei se tornou uma liderança entre os catadores do Distrito Federal, à frente do processo de profissionalização das cooperativas da categoria. Como um dos representantes, coube a ele assinar em 2013 um contrato de R$ 21,3 milhões com o BNDES, recurso que viabilizou a construção do Complexo Integrado de Reciclagem (CIR) do DF — hoje formado por dois grandes galpões, a cerca de 28 minutos do Palácio do Planalto.
Mais de dez anos para se formar em Direito
Foi nesse período que Rônei decidiu cursar Direito na Universidade Católica de Brasília (UCB), uma das instituições mais tradicionais da capital. Por falta de dinheiro, levou pouco mais de dez anos para concluir a graduação, enfrentando um empréstimo obtido pela própria mãe e sucessivas renegociações com a universidade para conseguir continuar matriculado.
“Se me formei em Direito, foi porque todos me ajudaram”, resumiu o catador ao concluir o curso.
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Reprovado por 0,25 ponto na OAB — e a virada em 2025
Formado, Rônei enfrentou mais um obstáculo: na primeira tentativa do Exame de Ordem, foi aprovado na fase objetiva, mas reprovado na 2ª fase discursiva por apenas 0,25 ponto. Mesmo assim, manteve a determinação: “Tenho fé e na próxima eu passo.”
A persistência se confirmou em 28 de julho de 2025, quando Rônei, então com 51 anos, recebeu sua carteira profissional da OAB/DF das mãos do presidente da Seccional, Paulo Maurício Siqueira, durante solenidade no auditório da instituição. “A advocacia mudou minha vida”, resumiu o novo advogado.
A história de Rônei ganhou destaque em veículos como o Correio Braziliense, que a descreveu como “de catador a doutor: uma trajetória de superação”. O caso reforça o papel da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e do ensino superior como caminhos de transformação social, mesmo décadas após o abandono escolar na infância.



