Da Bíblia às escolas dos EUA: a história de como a maçã virou símbolo do professor
A imagem de um aluno presenteando seu professor com uma maçã vermelha e lustrosa é um clichê universal, imortalizado em filmes, livros e no imaginário popular. Mas, para além da singela oferta, existe uma rica e multifacetada história que explica por que a maçã se tornou o símbolo por excelência da profissão docente. As origens dessa tradição mergulham em narrativas bíblicas, práticas socioeconômicas de séculos passados e na cultura popular do século XX.
Do Jardim do Éden ao Fruto do Saber
A associação mais antiga e simbólica da maçã com o conhecimento remonta à história de Adão e Eva no Jardim do Éden. No livro do Gênesis, a “árvore do conhecimento do bem e do mal” dá o fruto proibido que, ao ser comido, concede a sabedoria e a consciência. Embora a Bíblia não especifique que o fruto era uma maçã, a tradição popular e a arte ocidental, ao longo dos séculos, solidificaram essa imagem. A maçã, nesse contexto, representa a busca humana pelo saber, a curiosidade intelectual e as consequências, por vezes transformadoras, de se adquirir conhecimento. Assim, presentear um professor com uma maçã torna-se um gesto simbólico de oferecer o “fruto do saber” àquele que o transmite.
Uma Forma de Pagamento em Tempos de Escassez
Para além do simbolismo religioso, a tradição tem um forte pilar na realidade socioeconômica de séculos passados, especialmente nos Estados Unidos durante os séculos XVIII e XIX. Nesse período, em muitas comunidades rurais e de fronteira, os professores eram mal remunerados e, frequentemente, o pagamento por seus serviços não era feito em dinheiro, mas em produtos agrícolas e alimentos.
As famílias dos alunos, em sua maioria agricultores, contribuíam com o que tinham de mais acessível e abundante: frutas e vegetais. As maçãs, por serem colhidas no outono, período que coincidia com o início do ano letivo, e por sua durabilidade durante o inverno, tornaram-se uma forma comum e prática de “pagamento” e sustento para os mestres. A oferta de uma cesta de maçãs era, portanto, um gesto de gratidão e um reconhecimento vital do trabalho do professor, garantindo seu bem-estar e a continuidade da educação na comunidade. Com o tempo, a cesta cheia transformou-se em uma única maçã, mantendo o simbolismo de apreço e respeito.
A Popularização na Cultura Pop
A consolidação da maçã como um ícone da profissão docente no século XX deve muito à sua representação na cultura popular. Um marco importante foi a canção “An Apple for the Teacher”, gravada por Bing Crosby em 1939. A música, de melodia cativante, reforçou a associação entre a maçã e o ambiente escolar, apresentando a fruta como um presente singelo e afetuoso de um aluno para seu professor.
Filmes, programas de televisão e desenhos animados posteriormente adotaram e perpetuaram essa imagem, transformando a maçã em um atalho visual universalmente compreendido para representar o professor e a sala de aula.
Outros Simbolismos Atribuídos à Maçã
Curiosamente, a maçã carrega outros simbolismos que reforçam sua conexão com o conhecimento. A lenda da queda da maçã que teria inspirado Isaac Newton a formular a lei da gravitação universal, embora provavelmente apócrifa, associa a fruta a um momento de epifania e descoberta científica. Além disso, ao se cortar uma maçã horizontalmente, revela-se em seu centro uma estrela de cinco pontas, um pentagrama, que em diversas culturas é associado ao saber e à sabedoria.
Em suma, a maçã como símbolo do professor é uma construção cultural complexa, tecida com fios de narrativas religiosas, necessidades econômicas e representações artísticas. Ela carrega em si a dualidade do conhecimento – o proibido e o libertador – e a simplicidade de um gesto de gratidão que transcendeu o tempo, imortalizando a relação fundamental entre quem ensina e quem aprende.



