O Censo Escolar 2025 revelou uma queda de mais de 1 milhão de matrículas na educação básica em apenas um ano, acendendo o alerta para os rumos da escolarização no Brasil. Em 2025, o país contabilizou cerca de 46 milhões de estudantes, o menor contingente desde 2021, após anos de relativa estabilidade. Especialistas ressaltam que o movimento está ligado ao envelhecimento da população, à redução da repetência e a mudanças no fluxo escolar, mas apontam desafios para garantir qualidade, equidade e permanência de crianças e jovens na escola.
Brasil perde mais de 1 milhão de alunos na educação básica entre 2024 e 2025; entenda causas, impactos e o que diz o MEC sobre o Censo Escolar.
O levantamento, divulgado pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Inep, apresentou os dados da primeira etapa do Censo Escolar 2025, principal radiografia da educação básica brasileira. Foram registradas 46,018 milhões de matrículas em cerca de 178 mil escolas públicas e privadas, contemplando creche, pré-escola, ensino fundamental, ensino médio e educação de jovens e adultos. Em comparação com 2024, quando havia 47,088 milhões de estudantes, a queda foi de 1,082 milhão de alunos, o que representa recuo de aproximadamente 2,3% nas matrículas.
Segundo o MEC, a redução não indica, necessariamente, perda de acesso à escola, mas está associada à diminuição da população em idade escolar e à redução das taxas de repetência, que tornam o fluxo mais rápido e diminuem a chamada distorção idade-série. Ainda assim, o cenário exige monitoramento, sobretudo em etapas mais sensíveis, como educação infantil e ensino médio, onde a queda foi mais intensa.
Matrículas, etapas de ensino e “vagas” que estão se perdendo
Os dados mostram que o país perdeu matrículas em praticamente todas as etapas da educação básica, com destaque para o ensino médio, que registrou a maior retração. No total, o segmento teve queda superior a 400 mil matrículas em um ano, recuando para cerca de 7,37 milhões de alunos, com forte impacto nas redes estaduais. Especialmente no ensino médio, a saída de estudantes tende a refletir questões como evasão escolar, trabalho precoce e descompasso entre escola e projetos de vida dos jovens.
Na educação infantil, a fotografia também preocupa. O número de matrículas em creches ficou estagnado em torno de 4,18 milhões, e a pré-escola registrou queda de cerca de 3,8% no total de alunos em relação a 2024, interrompendo uma trajetória de expansão pós-pandemia. Já no ensino fundamental, a redução foi mais suave – cerca de 0,75%, passando de 26 milhões para 25,8 milhões de alunos –, mas reforça a tendência de queda contínua de matrículas ao longo dos últimos anos.
Quem é mais afetado pela queda
Os dados indicam que a retração nas matrículas não se distribui de forma uniforme pelo país. Estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Pará, Paraná e Pernambuco concentram a maior parte da redução, respondendo, juntos, por cerca de 75% da queda total, com São Paulo liderando o movimento. Em contrapartida, unidades da federação como Roraima e Santa Catarina registraram crescimento no número de matrículas, mostrando que ainda há realidades bastante diferentes no território nacional.
O recuo atinge principalmente a rede pública, que concentra a maioria dos estudantes, mas também alcança a rede privada, que viu diminuir o número de crianças especialmente nas creches e pré-escolas. Apesar disso, o MEC destaca que o atendimento à educação básica se mantém acima de 90%, reforçando que o desafio atual é menos de acesso bruto e mais de qualidade da oferta, permanência e combate às desigualdades entre redes e regiões.
Indicadores de fluxo, tempo integral e permanência
Ao mesmo tempo em que o país tem menos alunos matriculados, alguns indicadores de fluxo e permanência passaram por melhora gradual. O ensino fundamental alcançou frequência em torno de 99,5%, aproximando-se da universalização, e os dados apontam para redução da distorção idade-série, ou seja, menos estudantes atrasados em relação à série adequada à idade.
Outro destaque é o avanço das matrículas em tempo integral, especialmente na rede pública. Cerca de um em cada quatro alunos da rede pública já estuda em jornada ampliada, resultado de políticas de expansão do tempo integral e de investimentos federais por meio de programas como o Novo PAC, que prevê recursos para construção de novas creches e escolas. A expectativa do MEC é de que o aumento da oferta de tempo integral contribua para reduzir evasão, melhorar aprendizagem e tornar a escola mais atrativa para crianças e jovens.
Como o MEC e especialistas interpretam os números
Na leitura do MEC e de pesquisadores, a queda de matrículas deve ser analisada em conjunto com outros dados demográficos e educacionais. O Brasil convive com uma transição demográfica, com menos nascimentos, e, ao mesmo tempo, vê menos alunos repetindo de ano, o que faz com que mais estudantes concluam a educação básica e deixem o sistema de ensino.
Para o Inep, a redução não significa, por si só, um retrocesso no acesso, mas evidencia um sistema que se torna mais ágil, desde que a conclusão ocorra com aprendizagem adequada. Especialistas, entretanto, alertam que o país precisa acompanhar de perto os movimentos de evasão escolar, sobretudo no ensino médio, e garantir políticas de busca ativa, apoio financeiro e pedagógico, além de itinerários formativos mais conectados à realidade dos estudantes.
Classificação, monitoramento e uso dos dados do Censo
O Censo Escolar não classifica alunos individualmente, mas organiza um amplo conjunto de informações por etapa de ensino, rede, localização, turno, tempo integral, tipo de atendimento e perfil das escolas, permitindo que União, estados e municípios façam um diagnóstico detalhado do sistema educacional. Esses dados subsidiam a distribuição de recursos, o planejamento de vagas, a definição de metas educacionais e o acompanhamento de indicadores como taxas de matrícula, fluxo e cobertura escolar.
A partir da divulgação dos resultados, gestores podem identificar onde as matrículas caíram mais, quais regiões ampliaram o tempo integral, em que redes a distorção idade-série diminuiu e quais etapas concentram os maiores desafios. Com isso, o Censo se torna uma ferramenta estratégica para orientar políticas como expansão de creches, fortalecimento do ensino médio, programas de correção de fluxo e iniciativas de busca ativa de estudantes que deixaram a escola.
Conclusão
A queda de 1 milhão de matrículas na educação básica em um único ano é um dado expressivo e simboliza uma nova fase para o sistema educacional brasileiro, marcada por menos alunos, mas também pela necessidade de olhar refinado para qualidade, permanência e equidade. Embora parte da redução seja explicada pela mudança demográfica e pela queda da repetência, o recuo mais intenso no ensino médio e o freio na educação infantil exigem respostas firmes de estados e municípios.
Ao mesmo tempo, a ampliação das matrículas em tempo integral, a melhora do fluxo escolar e a alta cobertura no ensino fundamental mostram avanços que podem ser alavancas para uma agenda de qualidade com inclusão, especialmente nas redes públicas. O desafio central, daqui em diante, será transformar esse novo cenário em oportunidade para reorganizar a oferta, investir em infraestrutura e valorização dos profissionais e construir uma escola capaz de manter cada estudante, do berçário ao 3º ano do ensino médio, aprendendo, pertencendo e projetando o futuro.



